Perspectivas no Tratamento
Adjuvante do Câncer de Mama:
Estudos Atuais*


Entrevista com o Dr. Gilberto Luiz da Silva Amorim
Oncologista Clínico da Oncologistas Associados do Rio de Janeiro.


Por Luciana Rodriguez


Dr. Gilberto Luiz da Silva Amorim


Foi durante a última Conferência Nacional de Câncer que o Dr. Gilberto Luiz da Silva Amorim palestrou sobre o tema Letrozol no tratamento adjuvante do câncer de mama, mostrando recentes estudos que trazem novas perspectivas para pacientes com tumor de mama inicial. Durante a apresentação o especialista destacou o estudo MA.17, publicado recentemente no The New England Journal of Medicine, sobre a importância de uma terapia pós-tamoxifeno capaz de reduzir os riscos existentes da recorrência do câncer de mama. O estudo, que envolveu 5,2 mil mulheres mostrou, que nas pacientes que usaram letrozol houve redução de 43% do risco de recorrência da doença e de 46% na disseminação do câncer de uma mama para a outra, o que apontou para uma nova possibilidade que pode reduzir significativamente as chances de reincidência do câncer de mama em mulheres na pós-menopausa.

Acompanhe a seguir as principais considerações do Dr. Gilberto nesta entrevista à Prática Hospitalar.

Prática Hospitalar - Em que consistiu o estudo MA.17?
Dr. Gilberto Luiz da Silva Amorim - O MA.17 é um estudo fase III randomizado, duplo-cego, que avaliou o letrozol de forma adjuvante por mais cinco anos, após o término de cinco anos de tamoxifeno em pacientes menopausadas com câncer de mama.

P. H. - E quanto ao estudo B-14?
Dr. Gilberto - O B-14 comparou o uso de tamoxifeno por cinco ou dez anos, revelando que pelo menos para tamoxifeno não há benefício na extensão, muito pelo contrário, pode ser até deletério, face o risco de esta droga apresentar efeitos agonistas do estrógeno em longo prazo. Esta ainda é uma questão em aberto, pois existem dois estudos em andamento sobre este assunto.

P. H. - Qual o racional do MA.17?
Dr. Gilberto - A falta de benefício da extensão, conforme mostrado anteriormente, além do fato de que mais da metade das recorrências e dois terços dos óbitos por câncer de mamaocorrerem após o período de cinco anosda adjuvância. Este risco se estende por muitos anos, como mostrouSaphner no JCO em 1996.

P. H. - Quais pacientes fizeram parte do MA.17?
Dr. Gilberto - Mais de 5.000 mulheres na pós-menopausa, que encerraram tamoxifeno num período de até três meses, foram avaliadas e se estivessem livre de recorrência eram convidadas a participar do estudo, naturalmente com boas condições clínicas.

P. H. - Considerações do ponto de vista demográfico sobre o estudo.
Dr. Gilberto - O estudo foi liderado pelo NCI canadense, mas logo contou com a participação de grupos cooperativos americanos, como o Cancer and Leukemia Group B (CALGB), Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG), North Central Cancer Treatment Group (NCCTG), Southwest Oncology Group (SWOG), além de grupos europeus, como o European Organization for Research and Treatment of Cancer (EORTC) e o International Breast Cancer Study Group (IBCSG), além de pacientes terem sido recrutadas de forma independente no Reino Unido.

P. H. - Em qual momento do tratamento se iniciam os benefícios de letrozol e como se mantêm?
Dr. Gilberto - Os benefícios aparecem bem precocemente, pois com apenas um ano de tratamento o percentual de pacientes livres de recorrência é maior no braço de letrozol, independente docomprometimento axilare vai crescendo com o tempo, até chegar por volta do 4º ano de tratamento com 5% de diferença, em números absolutos (94,7% versus 89,8%), com p altamente significativo (0,00004).

P. H. - O que letrozol tem demonstrado quanto a linfonodo positivo?
Dr. Gilberto - Adiferença é maior (7,5%) neste subgrupo de pacientes, com relação à sobrevida livre de recorrência. Na última ASCO - The American Society of Clinical Oncology, a comunidade internacional foi surpreendida com os resultados de sobrevida global nesta população, pois o letrozol reduziu a mortalidade em 39%, atingindo significado estatístico (p = 0,04). Ficou surpreendida porque não era esperado alcançar este benefício, pois como o estudo foi interrompido (os comitês não consideraram ético que as pacientes continuassem a usar placebo diante dos resultados preliminares), as pacientes foram convidadas a passar para o braço do letrozol, prejudicando a comparação entre os grupos.

P. H. - Considerações quanto a segurança da droga.
Dr. Gilberto - Do ponto de vista da segurança, os efeitos colaterais encontrados no estudo são semelhantes aos observados em qualquer estudo com inibidores da aromatase. Uma preocupação constante, a osteoporose, foi avaliada no estudo, onde 8% das pacientes receberam este diagnóstico após a entrada, enquanto 6% no grupo placebo também desenvolveram a doença, mas não houve diferença quando o assunto foi novas fraturas (5,3% versus 4,6%, p = 0,25).

P. H. - E quanto a problemas cardiovasculares?
Dr. Gilberto - Em tese, a supressão estrogênica prolongada poderia gerar algum risco cardiovascular, mas na prática 6% das pacientes em ambos os grupos enfrentaram eventos isquêmicos cardiovasculares, o que é compatível com a faixa etária.

P. H. -
Quais as implicações clínicas mostradas no MA.17?
Dr. Gilberto - Letrozol oferece uma redução significativa (42%)do risco de recorrência, independente do “status” nodal, quando oferecido por cinco anos, inclusive com ganhos de sobrevida global no grupo de gânglios positivos. Considerando isto, as pacientes que estão encerrando ou encerraram recentemente seu período de cinco anos de tamoxifeno devem ser avaliadas pelo seu oncologistapara continuar a adjuvância com letrozol por mais cinco anos, especialmente aquelas com axila positiva.

P. H. - De acordo com sua experiência diária, alguma observação em relação ao tratamento destas pacientes?
Dr. Gilberto - Devemos manter especial atenção à questão óssea destas pacientes, que já apresentam risco de osteoporose pela faixa etária. Realizar densitometria anual, aumentar a atividade física, aumentar a ingestão de cálcio e vitamina D, devem ser encorajados, além deoferecermos bisfosfonatos nos casos mais críticos. Com todas estas medidas estamos ajudando a preservar a qualidade de vida das pacientes.

*As considerações são do autor e não refletem o pensamento do INCA ou do Ministério da Saúde sobre o assunto.

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