O VII Simpósio Mineiro de Oncologia e o VII Encontro dos Ex-Residentes do Centro de Estudos e Pesquisas Oncológicas de Minas Gerais, CEOMG, reuniram mais uma vez renomados representantes da oncologia brasileira. Os eventos foram realizados entre 13 e 16 de abril, em Belo Horizonte, MG. O tema central da sétima edição do evento foi a Oncologia no Mundo Real. Coordenado pelo Dr. Sebastião Cabral Filho, chefe do serviço de oncologia clínica da Santa Casa de Belo Horizonte, o evento colocou em discussão as principais dificuldades de médicos e pacientes no dia-a-dia. “As dificuldades na realização de exames, em conseguir autorização para tratamento e a nova questão de o médico atuar também como economista foram alguns dos assuntos mais discutidos no evento”, relata Dr. Cabral.
O conteúdo científico do evento abordou separadamente, através de mesas-redondas, o tratamento e o mundo real de cada patologia: câncer de pulmão, tumores do Sistema Nervoso Central, linfomas, câncer de cólon e reto e mama.
Durante o evento aconteceram, também, a Assembléia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, que reuniu ainda mais oncologistas no evento e o simpósio-satélite da Novartis, que trouxe o Dr. Frederico Costa, oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês, para abordar as estratégias emergentes no tratamento de GIST: Reflexões e Discussões.
A seguir, o comentário de alguns dos palestrantes sobre as respectivas apresentações.
Cirurgia no Câncer de Pulmão - Progressos e Resultados
Dr. Nilson Figueiredo Amaral
Cirurgião de Tórax do Hospital das Clínicas da UFMG/BH.
Chefe dos Serviços de Cirurgia Torácica e Endoscopia Respiratória dos
Hospitais Júlia Kubitschek e Madre Teresa.
“Sabemos que pacientes pertencentes a grupos de portadores de câncer de pulmão avançado, estádios IIIa, IIIb e IV, não seriam submetidos a cirurgia. No entanto, tanto do ponto de vista bibliográfico quanto de acordo com minha experiência e de alguns colegas, dentro desses grupos existe uma pequena quantidade de pacientes que sendo devidamente selecionados e conduzidos adequadamente poderiam se beneficiar em relação à qualidade de vida e sobrevida com o tratamento conjugado de cirurgia, quimioterapia e muitas vezes radioterapia.
Os resultados foram bons devido à seleção criteriosa desses pacientes. Essa seleção é baseada principalmente no performance status, que é a condição clínica do paciente e o tumor ser passível de ressecção cirúrgica, o que pode ser analisado através de exames deimagem pelo cirurgião. Outro fator importante é o estadiamento amplo e a integração médica (cirurgia + quimioterapia + > radioterapia) com conferência médica de cada caso. Além disso, faz-se necessária uma técnica cirúrgica experiente e bem estruturada.
Em um hospital público, onde os pacientes são atendidos pelo regime do Sistema Único de Saúde (SUS), observamos que a grande maioria dos pacientes tem pior condição clínica e tumores mais avançados, ou seja, há um retardamento no diagnóstico e na condução do tratamento. Verificamos também que em um hospital privado, que atende em sua maioria pacientes com planos de saúde, o paciente chega com uma melhor condição clínica, o diagnóstico costuma ser mais precoce e a condução do caso mais ágil.
O tratamento do câncer de pulmão tem avançado em dois sentidos: em relação aos quimioterápicos, que têm se mostrado mais eficazes; inclusive, ao longo dos anos temos observado uma melhor resposta de tumores aos novos quimioterápicos e melhor tolerabilidade; e avanços na cirurgia com ressecções cirúrgicas com técnicas mais avançadas.”
Integração do Rituximab no Tratamento de Linfomas de Baixo Grau
Dr. Alexandre José Silva Fenelon
Médico Assistente do Centro de Quimioterapia Antiblástica e Imunoterapia.
“O tratamento dos linfomas de baixo grau estava estagnado há várias décadas, mas recentemente vários estudos têm demonstrado uma importante transformação no que se refere ao tratamento dessa patologia, especialmente com a combinação de rituximab à quimioterapia. O rituximab é um anticorpo monoclonal humanizado contra o antígeno pan B CD-20 utilizado em pacientes portadores de linfomas de baixo grau. Até o momento, alguns estudos com o rituximab demonstraram aumento no tempo de sobrevida, o que é muito difícil neste tipo de tumor. Estes estudos, no entanto, têm tempo de seguimento de 2 a 3 anos e a evolução média da doença é em torno de uma década.
Um estudo multicêntrico conduzido em vários países da Europa comparou a combinação ciclofosfamida, vincristina e prednisona com este mesmo regime acrescido do rituximab em linfomas foliculares. Esse estudo apresenta problemas metodológicos, mas apesar disso mostram um aumento muito interessante na duração da resposta e no intervalo livre de progressão com o uso do rituximab associado à quimioterapia. Mais importante ainda é um estudo de um grupo alemão para linfoma de baixo grau em pacientes com linfomas de células do manto, folecular ou linfoplasmocítico recidivados. Esse foi o primeiro estudo que mostrou um aumento de sobrevida com a adição do rituximab a um regime de fludarabina, ciclofosfamida e mitoxantrona.
A toxicidade do rituximab é mínima; o que temos são alguns efeitos durante a infusão, tais como febre, calafrio, dispnéia e tosse, mas de um modo geral o grau da toxicidade é muito leve e esses efeitos são bem tolerados e vão desaparecendo com as infusões subseqüentes.
Estamos em uma fase de transição no tratamento do câncer, pois no momento em que surgem novas drogas, todo o conhecimento e conduta que tínhamos começam a ser questionados e ao mesmo tempo os novos tratamentos e seus benefícios ainda não estão estabelecidos.”
Quimioterapia Adjuvante em Câncer de Mama
Dr. Eduardo Carvalho Brandão
Oncologista Clínico do Centro de Quimioterapia do Hospital Belo Horizonte e da Santa Casa.
“No câncer de mama, em todos os casos tratados cirurgicamente que apresentam risco da doença recidivar é indicado o tratamento com a quimioterapia (QT) na tentativa de reduzir recidiva. O principal fator que nos leva a indicar QT é ter linfonodo na axila acometido pela doença. Naqueles casos em que não há linfonodo positivo na axila, usamos outros fatores para indicar o uso da QT, tais como a dimensão da lesão (tumores maiores que 2 cm geralmente são indicados), tumores menos diferenciados, presença ou não de receptores hormonais (caso não tenha receptores é indicado) e pacientes abaixo de 35 anos também têm um prognóstico pior.
A QT beneficia todas as pacientes, porém é ativa principalmente nos pacientes mais jovens. Sendo assim, em câncer de mama dividimos os pacientes em dois grupos: abaixo e acima de 50 anos. O benefício da quimioterapia representa um aumento de 10% de sobrevida global ao final de 15 anos para os pacientes mais jovens e cerca de 3% no mesmo período para pacientes acima de 50 anos.
Quanto à escolha do tipo de quimioterapia que será utilizada, já está provado que utilizar quimioterapia com mais de um medicamento (poliquimioterapia) é melhor do que usá-la com uma só droga. Trabalhos mais recentes têm demonstrado que incluir antracíclicos neste tratamento parece acrescentar 3 a 4% de benefício. Ultimamente algumas pesquisas demonstram benefícios similares ao acrescentar-se taxanos aos esquemas com antracíclicos. Assim, atualmente o tratamento mais benéfico conhecido é a associação de antracíclicos com taxanos. Nestes casos, a toxicidade é bastante razoável. Acrescentar antracíclicos causa alopecia, um efeito que do ponto de vista psicológico para a mulher é algo bastante difícil, mas na prática não é impeditivo na utilização do tratamento. Outros efeitos colaterais são náuseas e mielossupressão, que são problemas manejáveis. Acrescentar taxanos aumenta a toxicidade e, especialmente o docetaxel, apresentou uma taxa muito grande de mielossupressão, mas o benefício parece patente, provavelmente com aumento da chance de curar.
Além destas questões, existem outras implicações quando optamos pela realização do melhor esquema possível. Implica um aumento de custo de aproximadamente 20 vezes, o que é inviável para os padrões de remuneração do SUS. Este é um problema de financiamento no qual o governo, que é o principal financiador de saúde em nosso meio, tem que estar mais aberto em investir. Por outro lado, os médicos têm que ter sensibilidade para fazer algo equilibrado. O grande problema de hoje é que o governo está fechado em uma armadura institucional e falta sensibilidade às pessoas que decidem sobre este assunto de ouvir os profissionais da saúde e colocar a questão em discussão, para que a própria sociedade, como um todo, possa decidir onde aplicar os recursos”.