Padronização dos Testes de Sensibilidade Segundo CLSI 2005


Entrevista com a Dra. Flávia Rossi
Diretora Médica do Laboratório de Microbiologia do HC-FMUSP.


Por Flávia Lo Bello


Dra. Flávia Rossi


O Departamento de Patologia do HC-FMUSP, Seção de Microbiologia, promoveu, no dia 16 de abril, em São Paulo-SP, um curso de atualização em antibiograma segundo padronização CLSI 2005 (antigo NCCLS). O evento contou com a presença de 500 participantes, entre médicos, farmacêuticos e biologistas, e apresentou as novas recomendações do consenso.

Nesta entrevista à Prática Hospitalar, a Diretora Médica do Laboratório de Microbiologia do HC-FMUSP, Dra. Flávia Rossi, que coordenou o evento, fala sobre o NCCLS-CLSI abordando as principais mudanças do documento dessas normas no Brasil através da coalizão de diversas sociedades médicas.

Prática Hospitalar - O que é o CLSI e quais os seus objetivos?
Dra. Flávia Rossi - O CLSI (Clinical Laboratory Standards Institute), antigo NCCLS (National Committee of Clinical Laboratory Standars), é uma organização composta por um grupo multiprofissional qualificado e voluntário que a partir de 2005 passou a ter uma composição internacional. Esta composição levou à alteração da denominação do grupo, que passou a ser conhecida como CLSI. Hoje há representatividade da América Latina e Europa e não apenas dos EUA, como ocorria até o ano passado. Os documentos são conseqüências de consensos e há publicação de padronizações em diversas áreas laboratoriais.

P. H. - Como funciona o comitê de padronização de testes de sensibilidade?
Dra. Flávia - O comitê de testes de sensibilidade se reúne duas vezes ao ano e publica atualizações no mês de janeiro. O CLSI é consensual e não controlador; porém, seus documentos são base para os diferentes programas de qualidade e publicações internacionais, pois promovem uma uniformização de linguagem microbiológica quanto aos pontos de corte que determinam resistência e sensibilidade. São discutidas questões epidemiológicas, assim como avaliada a correlação clínico-laboratorial dos testes de sensibilidade que envolvem diferentes relações de bactérias e drogas em diferentes metodologias. A proposta do grupo é padronizar tecnicamente a realização dos testes, bem como a otimização de detecção de resistências específicas e liberação de laudos. Um dos objetivos é uniformizar pontos de corte e possibilitar comparação de dados de forma internacional.

P. H. - Qual a importância desta padronização?
Dra. Flávia - A Resistência Bacteriana é um problema mundial e necessitamos de parâmetros padronizados para melhorar cada vez mais a correlação clínico-laboratorial e a escolha de condutas terapêuticas mais adequadas, além de estabelecer estratégias conjuntas para tentar minimizar a emergência de cepas resistentes.

P. H. - Como foi o curso realizado em São Paulo sobre a padronização NCCLS-CLSI?
Dra. Flávia - Esse evento foi dirigido para uma comunidade envolvida com o tratamento de doenças bacterianas que demandam a realização e interpretação de antibiogramas. Participaram profissionais de laboratórios, como patologistas e microbiologistas em geral, e profissionais ligados ao controle de infecção hospitalar. Na primeira parte houve a apresentação do documento M100-S15 com suas tabelas e, posteriormente, conduzimos a aplicação prática com discussão de casos clínicos de forma interativa.

No entanto, para efetiva participação é interessante um conhecimento prévio das técnicas microbiológicas e da padronização básica do CLSI. O curso proporciona uma integração multiprofissional bastante desejada em nosso serviço e que deveria ser cada vez mais estimulada.

P. H. - Como está a implementação dessa padronização no Brasil? Há algum grupo brasileiro que discute este tipo de padronização através de dados nacionais?
Dra. Flávia - Neste ano houve uma sinalização por parte do Ministério da Saúde e Anvisa de que em breve a adoção CLSI em testes de sensibilidade será oficial. Não temos ainda um grupo brasileiro estabelecido que discuta a nossa realidade para que possamos adaptar estes documentos, mas acreditamos que estamos caminhando para uma padronização desejável.

P. H. - Além do grupo multiprofissional, o que mais necessitamos para ter um comitê nacional?
Dra. Flávia - Um banco de dados de resistência bacteriana nacional construído de forma consistente. Na parte de teste de sensibilidade é importante a uniformização dos serviços para leitura do antibiograma (cepa sensível e resistente em função do método, pontos específicos de corte, etc).

P. H. - E quais seriam as dificuldades de implantar essa padronização no Brasil, visto as grandes diferenças regionais que existem no país?
Dra. Flávia - Tanto o Ministério da Saúde quanto a Anvisa estão fazendo um trabalho em conjunto para que os grupos envolvidos na microbiologia clínica sejam treinados e conseqüentemente padronizados. As taxas de resistência brasileiras diferem de serviço para serviço, de região para região. A padronização nos proporcionará ações estratégicas para um uso racional de antibióticos, hoje extremamente desejável.

P. H. - Que mudanças importantes foram introduzidas nesse novo consenso?
Dra. Flávia - As mudanças técnicas são bastante detalhadas. Podemos destacar: nova técnica na detecção de resistência à oxacilina, de cepas de Staphylococcus aureus e coagulase negativo, que passou a ser realizada com discos de cefoxitina 30 mcg com um ganho de especificidade, nova interpretação dos resultados de Staphylococcus frente às quinolonas, que passam a ser mais resistentes, melhorando a correlação clínico-laboratorial, principalmente para S. aureus resistentes à meticilina e novos painéis de drogas para determinadas bactérias como Stenotrophomonas. Alguns pontos de controle de qualidade foram reformulados com a introdução de novas drogas. Todo ano, em janeiro, esse documento é liberado para o grupo geral com as modificações realizadas no ano anterior; a referência do documento atual é M100-S15. Portanto, há uma atualização contínua, e para que os laboratórios possam fazer um teste adequado seriam interessantes uma revisão conjunta dessas normas e a comunicação ao corpo clínico.

P. H. - Qual a implicação da não adoção desses guias?
Dra. Flávia - Testar um antibiótico frente a uma bactéria de forma não padronizada pode gerar resultados inadequados, com repercussão terapêutica importante. O documento traz a sugestão dos grupos de bactérias que podem ser testadas, grupos de antibióticos que se correlacionam a esse grupo de bactérias e a interpretação dos resultados como sensível, intermediário e resistente. Ele proporciona um tipo de algoritmo de interpretação e padronização de teste de sensibilidade, cuja finalidade é poder fornecer ao médico um resultado que tenha uma correlação clínico-laboratorial mais adequada para subsidiar a escolha terapêutica. Na verdade, o antibiograma irá compor esse quadro de escolha de drogas não como fator principal, mas fundamental.

P. H. - Qual o papel do antibiograma na escolha terapêutica?
Dra. Flávia - O antibiograma, desde que padronizado, possui uma boa correlação com um valor preditivo negativo mais proeminente, significando que ele pode indicar melhor qual droga não deve ser utilizada. Os diferentes aspectos a serem considerados neste exame foram abordados no livro Resistência Bacteriana - Interpretando o antibiograma, que eu e a Dra. Denise B. Andreazzi lançamos pela Editora Atheneu nesse curso.

Estas iniciativas do curso e livro visam melhorar a comunicação dos resultados microbiológicos para o grupo clínico geral, que irá aproveitar esses dados no aprimoramento da escolha do antibiótico mais adequado. Um trabalho de equipe integrado será fundamental na luta contra a resistência bacteriana.

P. H. - Como realizar o curso básico do CLSI em testes de sensibilidade para acompanhar as atualizações?
Dra. Flávia - A Disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP criou, em conjunto com o grupo MD (Consultoria em Microbiologia), cursos através da internet, que podem guiar o aluno de forma tutorada no aprendizado: www.estacaodigitalmedica.com.br/telemicrobiologia e www.saudetotal.com/microbiologia.