Conferência Discute Avanços Científicos Sobre
Tratamento e Prevenção da Aids



Por Flávia Lo Bello


Dr. Mauro Schchter (à esq.), Dra. Helene Gayle
e Dr. Celso Ramos.


Organizada pela Sociedade Internacional de Aids (International Aids Society - IAS) em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), será realizada, no Rio de Janeiro (RJ), entre os dias 24 e 27 de julho, a 3ª IAS - Conference on HIV Pathogenesis and Treatment (Conferência sobre Patogênese e Tratamento da Aids). Cerca de cinco mil especialistas são esperados para participar do importante evento, que terá tradução simultânea do inglês, língua oficial da Conferência, para oportuguês e o espanhol.
Realizada a cada dois anos, a Conferência é uma oportunidade única para que cientistas de destaque, especialistas em saúde pública e líderes comunitários possam analisar os mais recentes avanços relacionados à Aids e explorar como as descobertas científicas podem contribuir para a resposta global à epidemia. A escolha do Brasil como anfitrião reflete o papel de liderança que o país vem desempenhando ao garantir o acesso ao tratamento e ao mesmo tempo promover agressiva prevenção à doença.

“O Brasil tem provado ser um modelo para o mundo, com um programa progressista de controle da Aids, e desponta na liderança, mostrando que é possível uma resposta efetiva e abrangente para o HIV/Aids nos países em desenvolvimento”, opina a presidente da IAS e diretora do Programa de Aids, Tuberculose e Saúde Reprodutiva da Bill & Melinda Gates Foundation, Dra. Helene Gayle. “Essa é uma das principais razões pelas quais escolhemos realizar a Conferência no Brasil. Creio que o Rio de Janeiro será o cenário perfeito para cientistas de todo o mundo trocarem informações e debaterem os mais recentes avanços sobre HIV/Aids”, diz.

A abertura do evento terá a presença de personalidades políticas e culturais proeminentes, cuja participação irá acentuar a importância do compromisso global com a pesquisa do HIV/Aids e com a meta de alcançar o acesso universal à prevenção e tratamento da doença. Entre os participantes confirmados para a cerimônia de abertura estão o presidente da República de Botswana, Festus Gontebanye Mogae, e Stephen Lewis, enviado especial à África pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan.

A programação científica do evento será um conjunto de sessões científicas com apresentações plenárias por pesquisadores de destaque, com foco na resposta global à epidemia, incluindo prevenção e tratamento. O programa também contará com apresentação de resumos, debates, fóruns e simpósios-satélites patrocinados pela indústria farmacêutica. Um número recorde de trabalhos foi inscrito para as apresentações. Oriundos de 114 países, os trabalhos cobrem uma ampla gama de temas nas áreas de ciências básicas, diagnóstico, manifestações clínicas e prevenção.

Entre os temas apresentados durante o evento, serão discutidos:
- Epidemiologia Molecular do HIV (Francine E. McCutchan – EUA);
- Epidemias Emergentes do HIV (Chris Beyrer – EUA);
- Acesso ao Tratamento e Prevenção (Pedro Chequer – Brasil).

“O conhecimento científico é fundamental, mas também é preciso vontade política para transformar as pesquisas em programas concretos para prevenir e tratar a Aids nos países em desenvolvimento”, afirma a Dra. Helene, lembrando que atualmente cerca de 40 milhões de pessoas vivem com HIV/Aids no mundo. “O que se pode perceber claramente é que existe uma grande necessidade de unir prevenção e tratamento, pois um é complemento e reforço do outro. A menos que a expansão do número de pessoas sob tratamento seja complementada por esforços intensos e abrangentes na prevenção, corremos o risco de verificar um aumento no número de novas infecções com o tempo”, complementa.

A médica ressalta que sem uma prevenção realmente eficaz é muito difícil o tratamento para o HIV chegar a um número crescente de pessoas que dele necessitam. Ao mesmo tempo, a terapia anti-retroviral pode estimular a prevenção através do incentivo ao recurso a serviços de prevenção, como os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e pela redução do estigma. Além disso, a redução da carga viral das pessoas em tratamento pode torná-las menos infectantes. “Não existe mágica que possa reduzir a incidência dessa doença, mas uma combinação efetiva entre programas de prevenção e de tratamento em larga escala é a melhor alternativa no momento.”

Segundo o professor titular de Doenças Infecciosas e chefe do Laboratório de Pesquisas em Aids da UFRJ, Dr. Mauro Schechter, co-presidente da Conferência, nos últimos cinco anos aconteceram mudanças dramáticas na resposta global à Aids, e o acesso aos medicamentos para as pessoas vivendo com HIV/Aids em países em desenvolvimento tornou-se um imperativo global. “Em 2005, a questão não é mais se podemos assegurar o acesso ao tratamento, mas qual a melhor forma de fazê-lo. Apesar do ritmo de ampliação do acesso ao tratamento em países em desenvolvimento não ser tão veloz quanto gostaríamos, exemplos como o do Brasil demonstram que o sucesso é possível”, acrescenta.

Uma característica importante do programa brasileiro é o uso de versões genéricas de vários dos medicamentos usados para o tratamento da Aids, produzidos tanto pela iniciativa pública como privada. Na prevenção da Aids, o Brasil também é considerado pioneiro. “Espero que o sucesso do Brasil em proporcionar acesso universal ao tratamento da Aids e programas de prevenção agressivos sirva como modelo para países em desenvolvimento que lutam para conciliar o grande número de pessoas vivendo com HIV/Aids e a limitação de recursos”, afirma o ex-presidente da SBI e co-presidente da Conferência, Dr. Celso Ramos.