O Controle de Qualidade nas Instituições de Saúde


Dr. Amaury Mielle Filho
Coordenador do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Catarina - Blumenau - SC.
Presidente da Associação Catarinense de Estudo e Controle de Infecção Hospitalar.



Dr. Amaury Mielle Filho


Cerca de 1 em 10 pacientes hospitalizados poderá adquirir infecção hospitalar, que implica substancial custo ao sistema de saúde, independentemente de sua gestão. Estima-se um gasto de $ 6-7 bilhões por ano nos Estados Unidos com o tempo prolongado da internação e adição de recursos terapêuticos e diagnósticos. Nicholas Graves, em seu excelente artigo “Economics and Preventing Hospital-acquired Infection (Emerging Infectious Diseases vol. 104)”, demonstra através de modelo matemático quanto deve ser investido em programas de controle de infecção e quais são os mais apropriados de acordo com o perfil da instituição. O resultado traduz a necessidade de objetivos não só baseados nos custos, mas também em parâmetros diversos de qualidade no atendimento. Isso faz com que para competir com sucesso, a fim de alocar recursos para o controle de infecção hospitalar, os profissionais envolvidos analisem os benefícios econômicos de estratégias preventivas. Os custos estimados de intervenções terapêuticas e a economia de infecções “evitadas” são alguns parâmetros para análise custo-efetividade. Mais estudos precisam ser randomizados para maiores evidências das estratégias específicas de prevenção de infecção. O profissional controlador de infecção precisa reconhecer, explicar e atuar de modo contínuo em estratégias que convençam os administradores hospitalares de que seu papel está inserido na ordem econômica e de qualidade das instituições.

Nos últimos anos, as ações de controle de infecção hospitalar passaram a ser atividades inerentes aos programas de qualidade hospitalar. Num artigo inovador, Marguerite Jackson já advertia que o profissional de controle de infecção hospitalar que não estivesse alerta para as mudanças nas instituições de saúde estaria fadado a permanecer em uma era jurássica (Am J Infect Control 1997;25:38-43). Outros alertas foram feitos (APIC Annual Educational Conference and International Meeting 1998, San Diego) encorajando os profissionais a valorizarem seu trabalho enfocando o aspecto qualidade nas suas ações. Nos últimos encontros, por diversas vezes o real papel das comissões de controle de IH tem polarizado debates sobre permanecer na sua função básica e histórica ou envolver-se com a complexa dinâmica hospitalar que aborda temas sempre focados em economia, satisfação, competitividade, ou seja, a instituição de saúde como uma empresa. O marco de consolidação da valorização do profissional controlador de infecção, definido pelo estudo clássico de Haley em 1985 (Study of Efficacy of Nosocomial Infection Control), precisa de novos desafios, a fim de não tornar-se eternamente datado. Este tem sido o rumo que a CCIH do Hospital Santa Catarina decidiu assumir apoiada pela sua administração, parte integrante e proativa desta mesma comissão, que visualiza as nossas ações como parte indissociável de um real programa de qualidade no atendimento. A partida para esta opção foi parte de um projeto arrojado, ainda em curso, de rompimentos de paradigmas que envolveram desde mudanças estruturais até reformulação do real papel da instituição.

E nestas mudanças, através da visão do trabalho em equipe, a CCIH foi parte integrante de processos de treinamentos que clarearam a visão do negócio mas nunca se afastou de sua função primordial, que é prevenir a morbidade e mortalidade associada a infecção hospitalar, preconizando que a instituição precisa operar num contexto socioeconômico cujo reflexo se dá também em ações preventivas.

O controle de qualidade nas instituições de saúde, tema ainda pouco aplicado à prática nos hospitais do país, não constitui uma novidade na área médica. Em um documento do Colégio Americano de Cirurgiões de 1917 são feitas as primeiras referências entre qualidade e controle de infecção hospitalar. Embora o termo controle de infecção não estivesse clarificado nesse documento, sua dedução é clara, enfatizando a necessidade de padrões mínimos de diagnóstico associados a metodologia laboratorial. Posteriormente, em 1953, no primeiro manual da Joint Commission on Accreditation of Hospitals, três itens focavam especificamente o controle de infecções:

1. Cuidados sanitários básicos;
2. Normas para isolamento de pacientes (principalmente nas áreas de obstetrícia, neonatologia e pediatria);
3. Cuidados com profissionais (enfermagem) envolvidos com áreas de risco de infecção.

Durante os anos seguintes, diversas referências foram sendo acrescentadas à medida que o melhor conhecimento e a importância do tema vinham sendo aprimorados. Assim, em 1970, na nova edição intitulada Accreditation Manual for Hospitals, além de cuidados específicos com o ambiente hospitalar, é referenciada a importância do controle de infecções no hospital a um comitê multidisciplinar com responsabilidades e obrigações para alcançar seus objetivos.

Posteriormente, em 1990 a Joint Commission realiza a maior revisão sobre o controle de IH, convocando membros de entidades clássicas no combate à infecção hospitalar, como a APIC (Association for Practitioners in Infection Control), o CDC, The Society for Healthcare Epidemiology of America, entre outros.

No documento que hoje constitui a ferramenta para a acreditação dos hospitais, a prevenção e controle de infecções engloba 12 páginas, que pontuam diversos critérios. Entre eles, destacamos:

- Análise do programa de controle de IH, suas prioridades e aplicabilidade;
- Análise do potencial dos profissionais responsáveis pelas CCIHs, ênfase na formação específica de especialidade;
- Envolvimento das ações de controle de IH com o corpo clínico e outros profissionais da área da saúde;
- Análise do conhecimento científico e o resultado de sua prática no cotidiano da instituição;
- Envolvimento do sistema de gerenciamento de informação com o programa de controle de infecção;
- Integração do programa geral para melhoria da qualidade e segurança do paciente com o programa de controle de infecção.

Sem dúvida alguma, a importância dada ao programa de controle de IH é inserida no contexto qualidade. Se por muito tempo apenas os dados epidemiológicos representavam a parcela de contribuição das CCIHs, neste quesito com a análise da Joint Commission outras ferramentas tornam-se imprescindíveis neste processo.

Hoje, é possível e desejado que a CCIH opere referindo dados que vão além das estatísticas sobre taxas clássicas de IH ou consumo de antimicrobianos. Alguns indicadores podem contribuir para a valorização do trabalho de um modo mais abrangente. São eles:

1. Custo das infecções hospitalares.
É possível fazer estudos comparativos de modo bastante simples sobre custos finais com recursos alocados para tratamento de uma complicação infecciosa.

2. Impacto do controle de infecção.
Quanto de economia a instituição (ou o serviço de saúde) pode obter se a infecção for prevenida através de algumas medidas, como profilaxia adequada com antibióticos em cirurgia/ uso e descarte correto de materiais/ cuidados específicos com feridas/ programas de treinamento, etc.

3. Benefícios diretos e indiretos.
Alguns benefícios acabam por diluir-se dentro das instituições e podem muito bem ser valorizados quando se pretende destacar o serviço da CCIH.

Alguns exemplos:

- Emprego de tecnologia devidamente utilizada – através do conhecimento e atualização constante, o emprego de novas técnicas será feito de modo coerente e racional;
- Biossegurança – medidas educativas promovem um ambiente seguro de trabalho, contribuindo para um melhor rendimento e diminuição do absenteísmo ao trabalho;
- Treinamento em educação – através da interação multiprofissional, a CCIH estará envolvida em processos de treinamento de toda a equipe hospitalar;
- Melhora da imagem da instituição – o esclarecimento das ações em controle de IH não pode ficar restrito aos profissionais que atuem apenas no hospital, mas ser estendido aos seus clientes através de linguagem acessível e esclarecedora;
- Elo entre o corpo clínico e a administração.

Em seu brilhante livro “Qualidade da assistência médico-hospitalar”, o Dr. Uriel Zanon analisa com propriedade e pioneirismo aspectos técnicos e administrativos que fortalecem o conceito de qualidade. Muitas ações estão diretamente ligadas ao controle de infecção de modo direto. Outras, em nosso parecer, podem tornar-se alvo de abordagem da CCIH, pois muitas vezes não são mensuradas pelas instituições e relacionam-se diretamente com risco de infecção.

Alguns exemplos:
1. pacientes que desenvolvem úlcera de decúbito;
2. deiscência da ferida operatória;
3. flebites.

Nada melhor para terminar este artigo uma frase de Henry Ford, que diz: “Chegar junto é o começo, manter-se junto é um processo, trabalhar junto é um sucesso”. 3

Referências

1. Zanon U. Qualidade da assistência médico-hospitalar. Medsi, 2001.
2. Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organizations (www.jcaho.org).
3. The tools of quality improvement. CQI vs Epidemiology. Infect Control Hosp Epidemiol 1995;18:499-502.
4. Infection Control Program Quality Monitoring Indicators. Guideline by NSN (Australian Council on Healthcare Standards) January 2005.