
Dr. Antonio Alci Barone (à esq.), Dr. Arnaldo Colombo, Dr. Hamilton Bonilha e
Dr. Denio Valentim Alvarenga durante o Encontro realizado em São José dos Campos, SP. |
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No dia 21 de maio de 2005 a cidade de São José dos Campos reuniu, durante o Encontro Regional de Infectologia do Vale do Paraíba, um seleto grupo de especialistas, entre infectologistas, pneumologistas, hepatologistas e especialistas em saúde pública, para discutir temas de grande relevância na região.
De acordo com o médico infectologista do Centro de Moléstias Infecciosas de São José dos Campos, Dr. Denio Valentim Alvarenga, o objetivo do evento foi atualizar os profissionais de saúde sobre assuntos importantes da infectologia atual e promover uma maior aproximação entre os colegas de toda a região. “Sem dúvida, o Encontro representou um grande marco para um processo contínuo de atualização e discussão científica com eventos periódicos e programados com os temas de maior interesse de todos”, ressaltou.
Para a Dra. Eni Pestana, médica infectologista do Centro de Referência em Moléstias Infecciosas da Secretaria Municipal de Saúde de São José dos Campos, com especialização em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo e em Administração Hospitalar pela São Camilo e uma das coordenadoras do Encontro, o processo de educação continuada é uma prioridade na região, além de permitir a aproximação dos vários Serviços que procuram trabalhar em parceria. O Encontro reuniu profissionais do Vale do Paraíba e Litoral Norte para discutir temas de interesse comum e propiciar troca de experiências, com a interlocução da Sociedade Paulista de Infectologia. “Sem dúvida, é graças à dinâmica gestão das diretorias atual e anteriores da SPI e SBI que nossa especialidade tem assumido cada vez mais seu papel de destaque, bem como sua responsabilidade na colaboração com os principais temas de saúde de nossa população”, ressaltou Dr. Denio.
TEMAS RELEVANTES
A região do Vale do Paraíba e Litoral Norte do Estado de São Paulo abrange mais de 20 municípios, mas também tem grande influência e participação de especialistas do sul do Estado de Minas Gerais e Região Mogiana.
No evento foram discutidas as principais preocupações dos especialistas da região, assim como de todos os infectologistas brasileiros. “A infecção hospitalar e a emergência de microrganismos multirresistentes, a síndrome da imudeficiência adquirida e as hepatites crônicas têm ganhado grande destaque em nosso meio”, explica Dr. Denio.
Na opinião da Dra. Eni Pestana, sobre os temas que mais preocupam os especialistas na atualidade, a infecção pelo HIV é uma patologia que se torna cada vez mais complexa, exigindo capacitação e atualização de forma contínua. As infecções fúngicas têm uma prevalência alta na região e são de grande interesse, não apenas da infectologia como da oncologia, hematologia e de várias outras especialidades. Já as hepatites, principalmente a hepatite C, surgem como uma epidemia de proporções muito maiores que o HIV, exigindo atenção especial dos profissionais, assim como atualizações constantes.
PROGRAMAÇÃO CIENTÍFICA
Dentro dessa visão de temas prevalentes foi organizada a programação científica do Encontro, que contou com renomados especialistas em cada uma das áreas abordadas.
O Prof. Dr. Hélio Vasconcelos Lopes, Chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Heliópolis, iniciou o Encontro com a abordagem de infecções emergentes e reemergentes e chamou a atenção dos especialistas sobre a importância de estarem atentos às mudanças no perfil habitual das doenças infecciosas.
O tema Pneumonias comunitárias e hospitalares foi abordado pelo Dr. Hamilton Bonilha, Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, que apontou as melhores técnicas terapêuticas e diagnósticas disponíveis no momento para o tratamento dessas enfermidades.
Na apresentação Atualização sobre terapia antimicrobiana, o médico da Disciplina de Infectologia da Faculdade de Medicina da PUC-SP, Dr. Fernando José Goes Ruiz, revelou dados atuais sobre terapia antimicrobiana com uma visão dinâmica baseada nos agentes etiológicos.
O Prof. Dr. Antonio Alci Barone, Professor Associado do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina USP e Chefe do Ambulatório e do Laboratório de Hepatites da Clínica de MIP do HC da FMUSP, fez a apresentação do tema sobre o manejo das hepatites B e C crônicas, no qual ressaltou a importância crescente do tema no que diz respeito à saúde pública, bem como às melhores alternativas terapêuticas atuais e as possíveis perspectivas.
Para os profissionais que lidam no manejo diário do tratamento dos pacientes com Aids, o tema Risco cardiovascular e anti-retrovirais foi destaque no evento. O Dr. Bruno Caramelli, médico do Instituto do Coração, em São Paulo, enfatizou a importância de mudança nos hábitos de vida no dia-a-dia e alternativas terapêuticas.
Encerrando o Encontro, Atualização de doenças fúngicas foi o tema proferido pelo Dr. Arnaldo Colombo, professor titular de Doenças Infecciosas Parasitárias da Unifesp/EPM. Durante a apresentação, o especialista ressaltou a crescente preocupação com o adequado diagnóstico e com o arsenal terapêutico recente para essas patologias.
CENTRO DE REFERÊNCIA
O Encontro Regional de Infectologia do Vale do Paraíba foi promovido pela Sociedade Paulista de Infectologia (SPI) e pelo Centro de Referência de Moléstias Infecciosas de São José dos Campos, que há quase dez anos vem desenvolvendo um importante trabalho na região.
O Centro de Referência em Moléstias Infecciosas de São José dos Campos (CRMI) é uma Unidade da Secretaria Municipal de Saúde, que acompanha no momento 1.500 pacientes portadores de HIV, além de atender outras patologias infecciosas, como malária, doença de Chagas, toxoplasmose, citomegalovirose, DST, hepatites e outras. Oferece, além do atendimento ambulatorial, atendimento em Hospital/Dia, com 19 leitos. Conta com uma equipe multiprofissional da qual participam dez médicos.
Como relata Dra. Eni Pestana, o Centro de Referência teve início com o Hospital/Dia implantado em fevereiro de 1996, com apenas nove leitos para atender à grande demanda de pacientes com Aids que necessitavam de tratamentos e profilaxias, sem a disponibilidade de internação por 24 horas. Na época, contava-se com apenas três anti-retrovirais, a mortalidade era muito alta e o número de leitos e profissionais muito pequeno. “Foram nove anos de muito trabalho para conscientizar gestores, profissionais e os próprios pacientes no sentido de que a infecção pelo HIV se tornaria uma doença crônica, e isto necessitaria de estrutura física, equipe multiprofissional e profissionais continuamente capacitados e atualizados, além de um trabalho permanente de Educação para Prevenção”, lembra a médica infectologista, que acrescenta: “Ainda há muito por fazer, mas a grande satisfação de todos que participaram deste processo é ter hoje um Centro de Referência consolidado, pacientes com sobrevida de oito anos e mortalidade reduzida em 60%. Todos os que trabalham com HIV mantêm viva a esperança de poder participar da vitória maior, que será uma vacina que possa controlar uma epidemia que tem causado enormes sofrimentos para o ser humano”.
ENCONTROS MARCADOS
De acordo com Dr. Denio, as expectativas iniciais do primeiro Encontro foram superadas, tanto em relação ao número de participantes quanto à participação de todos nos debates em cada tema. O sucesso e a receptividade do evento foram tão grandes que já há intenção de promover outros encontros semelhantes.
O interesse da maioria dos participantes presentes quanto à realização de um Encontro Regional de Infectologia de freqüência anual com vários temas da infectologia, além de reuniões temáticas recorrentes, foi confirmado pela maioria, através de um questionário respondido durante o evento. A intenção dos organizadores é que o evento aconteça em rodízio nas cidades da região. E já em 2006 esse desafio será em Taubaté. “Nosso objetivo é trabalhar para que eventos como este continuem a ser realizados na região, beneficiando todos os profissionais que atuam na infectologia”, revela Dra. Eni.
A seguir, alguns dos palestrantes resumem os destaques de suas apresentações.
Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes

Prof. Dr. Hélio Vasconcellos Lopes
Chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Heliópolis.
Chefe da Enfermaria de Doenças Infecciosas do Hospital Mário Covas.
Professor Titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.
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“Nosso universo tem mais de 6 bilhões de habitantes; destes, acima de 500 milhões vive na miséria, 1 bilhão vive com menos de 1 dólar por dia e quase 2 bilhões vivem com menos de 2 dólares por dia.
A malária alcança 300 a 500 milhões de casos novos por ano. Cerca de 41% da população mundial, em mais de 100 países, está exposta ao risco de contrair malária.
Dengue, também em mais de 100 países, infecta de 50 a 100 milhões de pessoas, por ano, segundo a OMS.
Atualmente, 6 milhões de pacientes necessitam de tratamento anti-retroviral nos países em desenvolvimento. A síndrome da imunodeficiência adquirida está se deslocando para a Índia e os demais países do sul/sudeste asiático, futuro epicentro da pandemia.
A influenza é mais democrática: as pandemias de 18, 57 e 68, no século 20, atingiram tanto os países pobres como os ricos; contudo, diante da expectativa de uma nova e próxima (?) pandemia, o vírus potencial - H5N1 - será atraído pelos países pobres, os emergentes.
A OMS decretou, a partir de 1993, estado de emergência, como sendo a tuberculose a enfermidade emergente. A associação com HIV impulsionou seu crescimento em todo o mundo.
Cerca de 3 milhões de pessoas estão morrendo, anualmente, de doenças para as quais existem vacinas preveníveis, tais como poliomielite, coqueluche, sarampo, tétano (inclusive tétano umbilical) e hepatite B.
As doenças emergentes, reemergentes e evitáveis se concentram nos países que estão fora do processo de globalização e da economia de mercado, especialmente os da África. Haverá desigualdade maior em ‘outros mundos’?”.
Pneumonias Comunitárias e Hospitalares

Dr. Hamilton Bonilha
Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia. Médico infectologista.
Coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar dos
Hospitais da Santa Casa de Misericórdia de Piracicaba e do
Hospital dos Fornecedores de Cana de Piracicaba - SP.
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“As infecções relacionadas a serviços de saúde são uma variante da definição de infecções comunitárias. Portanto, pacientes sob cuidados domiciliares (terapia endovenosa, ferida) 30 dias antes, em diálise ou quimioterapia nos últimos 30 dias, hospitalizados nos últimos 90 dias e domiciliados em casa de repouso, apresentam agentes etiológicos com perfil de sensibilidade e resistência aos antibióticos semelhante às infecções hospitalares. Contudo, diante desses fatores de risco, principalmente devido ao uso prévio de antimicrobianos, como fluorquinolonas e cefalosporinas de 3ª geração, deveremos ficar atentos quanto à possibilidade de infecções por bacilos Gram-negativos produtores de beta-lactamase de espectro ampliado e por Staphylococcus aureus resistentes a oxacilina.
Quanto à pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), o diagnóstico deve levar em conta os dados clínicos, radiológicos e laboratoriais, sendo que as culturas (hemoculturas e culturas de secreções respiratórias) devem ser colhidas previamente à introdução empírica dos antimicrobianos. Os resultados das culturas quantitativas das secreções respiratórias devem ser usados para ajuste do tratamento inicial empírico. Esses resultados são seguros para indicar deescalonamento se houver evidência de melhora clínica, baseada principalmente nos parâmetros de oxigenação (PaO2/Fi02).
Em relação à etiologia das PAV precoce (< 4 dias), assemelha-se àquela da pneumonia adquirida na comunidade, enquanto os microrganismos multirresistentes aparecem nas pneumonias tardias.
Portanto, a antibioticoterapia empírica deverá ser guiada por perfis de sensibilidade locais e através das características epidemiológicas das infecções comunitárias (uso prévio de antimicrobianos e utilização de serviços de saúde) e das infecções hospitalares (gravidade da infecção, uso prévio de antimicrobianos, unidade e tempo de internação).”
Manejo das Hepatites B e C Crônicas

Prof. Dr. Antonio Alci Barone
Professor Associado do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias
da Faculdade de Medicina USP. Chefe do Ambulatório e do
Laboratório de Hepatitesda Clínica de MIP do HC
da FMUSP e Ex-Presidente da SPI.
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“O grande problema de saúde pública relacionado às infecções crônicas pelos vírus das hepatites B e C deriva do elevado número de pessoas acometidas por essas infecções, como também da gravidade potencial que elas representam. Como todos sabem, as hepatites crônicas causadas tanto pelo VHB como pelo VHC são capazes de evoluir para a cirrose hepática, com conseqüente falência hepática e para o hepatocarcinoma. Desta sorte, é premente a necessidade de diagnosticar precocemente e tratar, de maneira adequada, os pacientes com essas doenças.
A divulgação ampla dos conhecimentos, assim como o treinamento de grupos de profissionais da área da saúde para o atendimento das hepatites crônicas é uma das grandes tarefas dos gestores de saúde em nosso meio. Por essa razão, a Sociedade Paulista de Infectologia tem se empenhado em colaborar com as autoridades sanitárias nessa tarefa.
Trata-se, na verdade, de assunto complexo, que envolve conhecimentos atualizados e métodos de diagnóstico sofisticados, baseados em testes de biologia molecular, além da biópsia do fígado e do correspondente exame anatomopatológico. O tratamento também é longo e realizado com medicamentos de alta complexidade e eivado de efeitos colaterais, que precisam ser bem conhecidos para o seu manuseio.
Nós julgamos extremamente importantes estes eventos que permitem reunir colegas infectologistas e de áreas correlatas que atuam na linha de frente e que têm a oportunidade de atualizar e reciclar os seus conhecimentos na área. Tanto a hepatite crônica por VHB quanto por VHC são doenças que exigem conhecimentos específicos para o seu diagnóstico e tratamento, uma vez que são objeto de muita pesquisa em todo o mundo, determinando um enorme volume de informações novas.
Importante ressaltar que a hepatite por VHB, embora disponhamos de uma vacina altamente eficiente e desprovida de efeitos colaterais, ainda representa problema de muita atualidade, devido à grande eficiência na transmissão desse vírus, inclusive pela via sexual e através da transmissão vertical. Infelizmente, para que a população toda esteja imunizada ainda são necessários muitos anos ou décadas, especialmente em países em desenvolvimento.”
Atualização em Antibioticoterapia

Dr. Fernando José Goes Ruiz
Médico da Disciplina de Infectologia da Faculdade de Medicina da PUC-SP.
Coordenadorda CCIH do HospitalUNIMED de Sorocaba.
Especialista em Infectologia (SBI) e Terapia Intensiva (AMIB). |
“Tive o prazer de abordar o tema sobre atualização de antibioticoterapia, procurando enfocar os enormes problemas que estamos enfrentando em relação ao uso incorreto ou inapropriado dos antibióticos de modo geral.
O uso indiscriminado de quinolonas na comunidade e o de cefalosporinas nas instituições de saúde tem nos custado esforços no combate à resistência dos agentes bacterianos. Isso se reflete de modo mais contundente no perfil de resistência das bactérias Gram-negativas, onde não há visualização de lançamento em área clínica de novos agentes em futuro breve.
A resistência cruzada a todo o grupo de quinolonas e a expressão de enzimas de resistência (principalmente beta-lactamases de espectro ampliado) têm sido evidenciadas na prática clínica diária. Dessa forma, procurei reforçar os conceitos farmacodinâmicos/farmacocinéticos e ressaltar a sua importância para o uso correto desses antibióticos.
Estratégias vigentes como a terapia combinada, rodízio de antibióticos, deescalonamento, infusão contínua, entre outras, devem constituir regras de acordo com o perfil de sensibilidade de cada instituição. Estudos mais abrangentes estão em andamento e poderiam nos fornecer subsídios, que sempre devem ser focados sob a égide do problema local. Daí a necessidade desta troca de experiências que a Sociedade Paulista de Infectologia tem prestigiado e apoiado nos encontros regionais já realizados, além dos futuros programados.”