
Dr. Carlos Elias Fristachi |
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INTRODUÇÃO
Entende-se por mortalidade o número de mortes ocorridas em determinado período. Taxa de mortalidade é o numero de mortes por 100.000 pessoas por ano. Podemos ainda conceituar mortalidade como o produto da incidência e fatalidade para um determinado câncer. Fatalidade, que é o inverso da sobrevida, é a proporção de casos de morte por câncer; taxa de mortalidade mede o risco médio de uma população morrer de um determinado tipo de câncer em um período específico (geralmente um ano), enquanto fatalidade representa a probabilidade de um indivíduo com câncer morrer dessa doença. Neste trabalho, apresentamos apenas a mortalidade por câncer ginecológico e mamário em dois períodos, 1988-91 e 1998-01. A escolha da faixa etária foi devido à ocorrência de maior número de mortes por câncer.
Em 1950, a expectativa de vida da mulher era de 50 anos; atualmente, alcança os 73,8 anos. O perfil epidemiológico dominante da década de 50 exibia como primeira causa de óbito as doenças infecciosas, diferentemente do atual (IBGE).
No Brasil, particularmente na população feminina do município de São Paulo, tem se observado uma mudança no perfil epidemiológico de morbidade e mortalidade, no tocante às doenças cardiovasculares e as neoplasias.
Entre as principais razões, incluem-se as modificações impostas à mulher pela sociedade moderna; assim, nota-se uma maior exposição a fatores de risco, que anteriormente eram vistos com maior freqüência nos homens. Outras mudanças, como as demográficas, socioeconômicas e de estilo de vida têm exposto as mulheres, ainda mais, aos agravos para sua saúde. É provável que o estilo de vida inadequado seja o principal fator modificador do perfil de morbidade e mortalidade na mulher.

Prof. Dr. José Mendes Aldrighi |
Ademais, a necessidade de colaborar na renda familiar tem induzido a uma crescente participação da mulher no competitivo mercado de trabalho, tornando-as mais expostas aos fatores de risco para doenças como as neoplasias; a atividade sexual mais precoce, livre e com múltiplos parceiros propiciou maior risco de doenças sexualmente transmissíveis, como HPV, HIV, herpes, sífilis, clamídia, gonococos, e conseqüentemente, de câncer de colo uterino. No tocante ao câncer de mama, o estilo de vida, uso de anticoncepcionais hormonais, a terapia hormonal da menopausa e os fatores reprodutivos têm sido os principais implicados.
Dados do Datasus (2000) revelam que as doenças cardiovasculares foram responsáveis pelo óbito de 44,68% das mulheres acima dos 50 anos de idade,(4) enquanto o INCA(5) estimou para 2005(13) a ocorrência de 49.470 novos casos de câncer de mama no Brasil e cerca de 12 mil óbitos.
No município de São Paulo, a maioria dos óbitos por câncer de mama no período de 1980 e 1995 ocorreu na faixa etária entre 55 e 60 anos, enquanto os óbitos por câncer do colo uterino na faixa etária dos 40 a 55 anos.
MÉTODO
Para pesquisa das causas de óbitos na cidade de São Paulo, na faixa etária de 40 a 65 anos, nos períodos de 1988 a 1991 e 1998 a 2001 foram obtidos dados do DATASUS (www.datasus.gov.br.) e MS/SVS/DASIS SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), Dados de Pesquisa do Serviço de Epidemiologia da FMSP-USP (Ruy Laurenti) e Dados do Serviço de Estatística da FMSP-SP (Dra. Maria Helena P. Mello Jorge).
Para listagem de óbitos femininos por câncer nesta faixa etária, foi consultado o site Datasus-Mortalidade do Município de São Paulo, referente a óbitos/residência, segundo causa-CID9-BR e CID10-BR, dentro da faixa etária dos 40-64 anos.
Para contagem das causas básicas de óbito feminino por câncer ginecológico e da mama no grupo etário selecionado e cálculo dos respectivos coeficientes de mortalidade foi utilizado o programa SPSS for Windows, versão 6.0; para comparação da mortalidade nos dois períodos avaliados foram feitos cálculos de porcentagem das causas de óbitos CID9-BR e CID10-BR.
RESULTADOS
No município de São Paulo ocorreram 26.494 óbitos de mulheres na faixa etária de 40 a 64 anos no período de 1988-91, enquanto no de 1998-2001 foram registradas 28.485 mortes.
As tabelas 1 e 2 mostram a mortalidade por câncer ginecológico e de mama, de mulheres na faixa etária de 40 a 64 anos, segundo residência, CID-BR 9 e 10, nos períodos de 1988-91 e 1998-01 no município de São Paulo.
Nos períodos analisados, as doenças cardiovasculares e as neoplasias, em conjunto, responsabilizaram-se por 68,04% e 75,87% dos óbitos. Todas as porcentagens descritas se referem ao número total de óbitos nos períodos avaliados no município de São Paulo.


Ao se comparar a taxa de mortalidade das neoplasias nos dois períodos estudados (1988-91 e 1998-01) verifica-se significativo aumento de 17,90% para 29,30%, respectivamente. O número de óbitos por câncer de mama aumentou de 6,35% para 7,37%. O câncer do colo uterino de 1,89% para 2,30%. Em relação ao câncer do corpo do útero ocorreu pequena diminuição, ou seja, de 1,63% e 1,26%, enquanto a mortalidade por câncer do ovário permaneceu estável.
COMENTÁRIOS
Não é possível com estes dados tirar conclusões definitivas com relação à mortalidade por câncer de mama e ginecológico. No entanto, observamos um acréscimo de 1,02% nos períodos estudados, podendo refletir uma tendência de aumento da mortalidade e apontar falhas na detecção precoce ou mesmo no tratamento. Mas também pode refletir aumento da prevalência.
Dados recentes da FMUSP-SP mostram que a capital de São Paulo diagnostica e trata cerca de 25% dos casos de câncer de mama do Brasil e que a estimativa para 2004 no município de São Paulo é de que ocorrerão cerca de 3.950 óbitos em decorrência do câncer de mama.(9)
Esses dados podem ser explicados pela demora de até um ano para uma mulher realizar uma mamografia no serviço público, na cidade de São Paulo; além do mais, quando um tumor maligno é diagnosticado, pode ocorrer demora de até 150 dias para iniciar o tratamento.
A mortalidade por câncer do colo uterino também aumentou. Mas pode ser que não reflita falha na prevenção primária na cidade de São Paulo, pois esta recebe imigrantes de todo o Brasil.
A mortalidade por câncer do endométrio experimenta uma tendência de queda, talvez pelo diagnóstico mais precoce da doença.
Não houve mudança na mortalidade por câncer do ovário.
Como os dois períodos estudados foram próximos, é possível que não possam fornecer com exatidão as mudanças das causas de óbito da mulher nessa faixa etária estudada; além disso, as possíveis imprecisões e falhas que podem ocorrer no preenchimento dos atestados de óbito, bem como prováveis coletas deficitárias dos dados obtidos pelos órgãos públicos, podem não expressar com fidelidade a realidade dos fatos.
Apesar disso, os dados obtidos referentes às causas de óbitos na faixa etária estudada no município de São Paulo, ao fornecerem informações importantes, poderão ser úteis na formulação de políticas públicas visando estratégias preventivas.
REFERÊNCIAS
1. World Health Organization. Research on the menopause in the 1990. Reports of a WHO scientific group. Geneve; 1996.
2. Aldrighi JM. Balanço risco/benefício da terapêutica de reposição hormonal: direções para o futuro. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo 1996;6:734-7.
3. IBGE. No site: www. presidencia. gov. br/public_04/colecao/prebc33.htm. Acessado em 02 /11/ 2004.
4. Pesquisa no site: www.datasus.gov.com.br. Mortalidade por idade e local de residência no município de São Paulo.
5. Wunsch Filho. Mortalidade por câncer no Brasil entre 1980-1995: Padrões regionais e tendências temporais. Rev Ass Méd Bras 1992;48:250-257.
6. American Heart Association. Heart and Stroke Statistical 2004 Update. Dallas: American Heart Association; 2003. p 1-38.
7. Pesquisa no site: www.cancer.org. American Cancer Society, 2004 acessado em 02/11/2004
8. Alvarenga GC, Sá EMM, Passos MRL, Pinhero VMS. Papilomavírus humano e carcinogênese no colo do útero. J Bras Doen Sex Transm 2000; 12(1):28 38.
9. Ministério da Saúde INCA. Câncer do colo uterino. Brasília (DF); 2004. site www.inca.gov.br/ conteudo_view.asp?ID+326; visitado em 25/06/2004.
10. Ministério da Saúde. Normas e recomendações do Instituto Nacional de Câncer/MS. Brasília (DF); 2000; 46(11).
11. Pesquisa no site: www. who.int/coutry/bra/eu. Acessado em 25/06/2004.
12. Rede Interagencial de informação para a saúde. Indicadores básicos para a saúde no Brasil: conceitos e aplicações. Organização Pan-Americana da Saúde-Opas/OMS. Setor das Embaixadas Norte, Lote 19. Brasília, DF; 2002.
13. Ministério da Saúde INCA. Normas e recomendações do Instituto Nacional de Câncer/MS. Brasília (DF); 2005. site www.inca.gov.br