Dra. Sílvia Figueiredo Costa (à esq.) e Enfa. Ana Paula Coutinho.
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Entre os desafios futuros que a nova diretoria da APECIH - Associação Paulista de Estudos e Controle de Infecção Hospitalar - tem pela frente está promover uma maior difusão do conhecimento sobre o controle de infecção hospitalar em cidades do interior do Estado de São Paulo. Além disso, a APECIH também pretende assumir um papel mais expressivo em relação às normas e legislações brasileiras e ainda contar com uma participação mais efetiva dos seus associados.
Nesta entrevista à revista Prática Hospitalar, a infectologista Dra. Sílvia Figueiredo Costa e a enfermeira Ana Paula Coutinho, respectivamente Presidente e Vice-Presidente da APECIH, comentam com mais detalhes os planos da Associação, as preocupações da nova administração e as perspectivas futuras em relação ao controle das infecções hospitalares no Brasil.
Prática Hospitalar - Quais foram as conquistas mais importantes da APECIH nos últimos anos?
Enfa. Ana Paula Coutinho - A APECIH, quando começou como Núcleo Paulista de Controle de Infecção Hospitalar, pretendia produzir material e eventos científicos para que os profissionais que atuassem em controle de infecção hospitalar ficassem mais próximos às novas informações e novas formas de trabalho. A APECIH ao longo dos anos foi buscando esse objetivo e, com certeza, a produção de monografias para os sócios foi uma das suas grandes realizações, fazendo parte hoje das nossas atividades.
P. H. - Quais são as principais preocupações desta nova gestão?
Enfa. Ana Paula - Temos discutido bastante sobre o controle de infecção hospitalar e a segurança do paciente como resultado final da assistência prestada nos serviços de saúde. É dentro dessa filosofia que o controle de infecção hospitalar se insere, procurando oferecer sempre uma maior segurança ao paciente e aos profissionais em meio a tantas prioridades que existem dentro de um serviço de saúde. Na realidade, creio que o nosso grande desafio atual é buscar cada vez mais qualidade e segurança no atendimento aos pacientes, sempre objetivando a prevenção e o controle das infecções hospitalares.
Dra. Sílvia Figueiredo Costa - Um outro ponto importante da nova gestão é tentar difundir mais o conhecimento sobre o controle de infecção hospitalar em outros locais do Estado fora da Capital, em serviços menores, porque assim como o país é extremamente heterogêneo, o Estado de São Paulo também é. A Capital concentra o conhecimento e o acesso à informação; então, essa nova gestão tem como uma das suas prioridades a divulgação desse conhecimento, através de cursos, em cidades do interior.
P. H. - Essa é uma forma de melhorar a capacitação profissional. Que outras medidas serão implementadas com esse intuito?
Dra. Sílvia - A idéia é ampliar o escopo da página da APECIH na Internet, ou seja, disponibilizar artigos e informação científica aos profissionais da área, e também mudar um pouco o escopo do jornal da APECIH, com o intuito de levar de maneira mais fácil a informação aos sócios, principalmente do interior do Estado. Através do site, o profissional poderá ter acesso a alguns artigos que a diretoria irá selecionar e disponibilizar on-line mensalmente. Temos também uma regional da APECIH em Santos, que foi reativada e está apta a realizar cursos, divulgar trabalhos e capacitar as pessoas no litoral do Estado.
P. H. - Como está a situação atual em relação ao controle das infecções nos hospitais brasileiros?
Dra. Sílvia - Em relação aos dados nacionais, o órgão responsável por essas informações é a Anvisa, a APECIH não possui esses dados. Mas existe um inquérito sobre a estrutura das CCIHs no país, que foi enviado de forma passiva para que os hospitais respondessem sobre a formação das CCIHs e como elas trabalham. Além desse inquérito sobre as Comissões, existe um outro inquérito ativo da Anvisa a respeito dos laboratórios de microbiologia, no qual ocorreu uma visita nos laboratórios dos hospitais com mais de dez leitos de UTI. Esses dados ainda não estão compilados, mas creio que em breve devem estar disponibilizados no site da Anvisa.
P. H. - É necessário haver a implementação de medidas mais rígidas de controle de infecção hospitalar no país?
Enfa. Ana Paula - Acredito que o mais importante é reforçarmos as medidas básicas de controle, como lavagem de mãos e aderência ao uso dos equipamentos de proteção individual. Toda vez que temos uma boa adesão por parte dos profissionais nessas medidas tão básicas, conseguimos resolver a grande maioria dos problemas do controle de infecção hospitalar.
Dra. Sílvia - Uma medida importante também é a melhor utilização dos próprios dados internos do hospital, porque no Estado de São Paulo vários hospitais têm um Controle de Infecção Hospitalar, há uma Comissão ativa, que faz vigilância das infecções hospitalares, mas não utiliza esse dado da melhor forma possível para tentar reduzir as taxas; não possui metas para tentar reduzir, por exemplo, a taxa de infecção de corrente sangüínea. A otimização dos dados de cada hospital é fundamental para trabalhar o controle e prevenção das infecções hospitalares. Sabemos que é muito comum, não só no Brasil, mas no resto do mundo, as pessoas estarem muito preocupadas com números e terem uma preocupação menor com as ações para tentar melhorar ou reduzir esses números. Porém, essa situação está mudando, vemos que hoje as pessoas estão começando a trabalhar bastante os indicadores de infecção hospitalar com intuito de controlar e reduzir as infecções hospitalares.
P. H. - Existe uma preocupação da APECIH também em relação aos pacientes que têm cuidados de saúde fora do ambiente hospitalar?
Enfa. Ana Paula - Sem dúvida, em 2004 a APECIH julgou importante fazer uma publicação sobre o controle de infecção fora do hospital, pois os nossos pacientes estão saindo do hospital e passando para uma assistência ambulatorial, domiciliar ou em hospitais de longa permanência. Quando se monta, por exemplo, uma semi-UTI na casa do paciente, aquele indivíduo responsável pelos cuidados do doente precisa ter noções de controle de infecção e tem de aplicar isso muito prontamente. Produzimos uma monografia no ano passado, denominada “Prevenção e Controle de Infecções Associadas à Assistência Médica Extra-Hospitalar ambulatórios, serviços diagnósticos, assistência domiciliar e serviços de longa permanência”, coordenada pela Dra. Régia Feijó, pelo Dr. Crésio Romeu Pereira e por mim, e nessa publicação conseguimos traduzir um pouco essa nova frente de trabalho para o controlador de infecção, tentando trazer dados suficientes para orientar os profissionais sobre como eles devem agir e com o que eles devem se preocupar.
Esse é um tema muito importante, porque inúmeros procedimentos estão sendo cada vez mais realizados em regime ambulatorial, procedimentos cada vez mais complexos. Além disso, os serviços de longa permanência também têm nos preocupado muito, como nas situações quando um paciente que esteve hospitalizado por meses é transferido de um hospital de grande porte para um hospital de longa permanência, esses hospitais podem se transformar em grandes reservatórios de microrganismos multirresistentes. Hoje temos de pensar em como fazer o controle de infecção nesses serviços, cuja preocupação é com outros tipos de infecções, diferente de um paciente hospitalizado numa unidade de terapia intensiva. Na assistência domiciliar, por exemplo, temos que nos preocupar com o familiar-cuidador do paciente e em como ele deve se portar, tanto para proteger o paciente como a si mesmo; o cuidador precisa entender e valorizar a importância do que o controlador está dizendo, daquilo que deve ser feito e cumprido.
P. H. - Quais são os maiores problemas relacionados ao conceito do uso racional de antimicrobianos?
Dra. Sílvia - O uso racional de antimicrobianos na América Latina esbarra num grande problema, que é a não obrigatoriedade de prescrição médica para a utilização de antibióticos na comunidade, um problema que já começa fora do ambiente hospitalar. Na América Latina, apenas o Chile tem como obrigatoriedade a prescrição médica para o uso de antibiótico na comunidade. Então, o problema da resistência microbiana começa com a própria população usando de forma inadequada os antibióticos. No ambiente hospitalar, apesar dos grandes problemas que temos, o Brasil é um dos países da América Latina que têm um programa de uso racional de antimicrobianos melhor estruturado, porque em alguns países nem existe legislação recomendando o controle do uso de antimicrobianos no ambiente hospitalar.
É necessário também haver uma maior conscientização por parte dos médicos que prescrevem antibióticos, e em relação a isso há um projeto do Ministério da Saúde e da Anvisa da criação de um Comitê de Controle de Resistência Microbiana e Uso Racional de Antimicrobianos, porque o problema começa na formação do profissional de saúde que prescreve o antibiótico, formação no sentido do uso racional dessas drogas, levando sempre em consideração efeitos adversos, o custo do medicamento e o impacto na resistência microbiana. A formação é fundamental, não só de toda área médica, mas também dos não-médicos, como os veterinários e os dentistas, por exemplo. O uso de antimicrobianos na agricultura e na veterinária é muito grande e o impacto disso na resistência, principalmente nas infecções que ocorrem na comunidade, nunca foi medido de forma adequada no país. Sabemos de estudos europeus e americanos que um dos agentes mais importantes de infecção hospitalar nesses paises o enterococo resistente à vancomicina começou na avicultura na Europa. Na realidade, esse é um tema que envolve a conscientização de toda a população.
P. H. - Quais as perspectivas futuras no tratamento das infecções?
Dra. Sílvia - As perspectivas, infelizmente, são ruins e por isso acredito que temos de trabalhar mais do que nunca na prevenção das infecções e no uso racional de antimicrobianos na comunidade e no ambiente hospitalar. Mesmo antes de um antibiótico ser disponibilizado para uso clínico já é possível detectar bactérias resistentes àquela nova droga que será lançada no mercado; portanto, o uso racional é fundamental, pois a indústria farmacêutica não consegue acompanhar a velocidade com que a bactéria fica resistente. Com relação ao tratamento, é importante tentar utilizar um tratamento sempre com uma droga que tenha melhor penetração naquele sítio de infecção, menos efeitos adversos e que possa levar a menos resistência, e também tratar apenas a infecção e não a colonização, pois muitos médicos tratam apenas a colonização dos pacientes e isso aumenta a chance de resistência. O arsenal terapêutico de que dispomos é amplo, porém de utilização restrita, principalmente para os Gram-negativos multir-resistentes. Atualmente, existe um problema em São Paulo de bactérias Gram-negativas resistentes a todos os antibióticos, apenas sensíveis a uma classe de antibióticos, que são as polimixinas, e não há perspectivas a curto prazo de novas drogas para o tratamento dessas bactérias.
Diretoria da APECIH: Dra. Roseli Calil (da esq. para a dir.),
Enfa. Esperança S. de Abreu, Dra. Sílvia F. Costa, Dra. Ana Paula Volpato, Dr. Guilherme Furtado,
Enfa. Ana Paula Coutinho, Enfa. Adriana Giunta, Dra. Gláucia Varkulja e Dra. Luci Corrêa.
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P. H. - Quais são os desafios e projetos futuros da APECIH?
Dra. Sílvia - Um dos projetos da nova diretoria é realizar um fórum no próximo ano para discutir acreditação e qualidade de atendimento dos hospitais do Estado de São Paulo. Um outro desafio é o de assumirmos um papel mais expressivo em relação às normas e legislações brasileiras nacionais e estaduais e para isso pretendemos contar com a opinião dos sócios da APECIH.
Enfa. Ana Paula - É importante inserirmos os associados nessas discussões, porque eles têm vivências e visões diferentes das nossas; por isso, queremos que os sócios participem mais ativamente desse processo, para assim fortalecer uma linha de raciocínio e trabalharmos enquanto classe de controladores de infecção hospitalar. Sem dúvida, esse é um outro desafio que temos pela frente.
P. H. - Gostariam de acrescentar mais alguma informação?
Enfa. Ana Paula - Gostaria de salientar que iremos lançar duas monografias ainda este ano, sendo uma delas “Controle de Infecção em Unidades de Diálise” e a outra sobre “Atualização de Prevenção e Controle de Infecções da Corrente Sangüínea Relacionada aos Cateteres Vasculares”.
Dra. Sílvia - E ainda este ano teremos um curso sobre resistência microbiana no dia 8 de outubro, em São Paulo, que irá discutir a qualidade do laboratório de microbiologia e medidas de controle e prevenção de patógenos multirresistentes. Será um evento multiprofissional em que teremos a participação de vários profissionais, entre médicos infectologistas, microbiologistas, enfermeiros, etc.