Evento Reunirá Profissionais
Interessados em Doenças do Fígado


Entrevista com a Profa. Dra. Edna Strauss
Médica Especialista em Hepatologia pela AMB. Professora de Pós-Graduação na Disciplina
de Hepatologia, Departamento de Patologia, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e
Presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia.


Por Luciana Rodriguez



A diversificada programação científica e a participação de renomados profissionais brasileiros e estrangeiros envolvidos com a Hepatologia trazem excelentes expectativas em relação ao XVIII Congresso Brasileiro de Hepatologia. O evento, que será realizado entre os dias 19 e 22 de outubro em Campos do Jordão (SP), reunirá temas de grande importância, trazendo dados recentes de diversas áreas da hepatologia.

A médica especialista em Hepatologia pela AMB, professora de pós-graduação na disciplina de Hepatologia, Departamento de Patologia, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e atual presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Profa. Dra. Edna Strauss, adiantou algumas informações sobre o congresso nesta entrevista à Prática Hospitalar. Saiba mais a seguir.

Prática Hospitalar - Quais serão os principais destaques do próximo Congresso Brasileiro de Hepatologia?
Profa. Dra. Edna Strauss - O evento se inicia no dia 18 de outubro com três cursos, respectivamente: clínico, pediátrico e cirúrgico, que vão das 8:00 às 17:30 h. O curso clínico versará sobre “Condutas em Hepatologia”, indo das hepatites B e C para esteatoepatite não-alcoólica (NASH) e alcoólica, doenças auto-imunes, colestáticas e complicações da cirrose.

O curso pediátrico tem quatro módulos, respectivamente: colestase e nutrição, doenças metabólicas, insuficiência hepática aguda, hepatopatias crônicas e complicações. O curso cirúrgico também tem quatro módulos, a saber: Abordagem do nódulo hepático, tratamento do hepatocarcinoma do cirrótico, ressecções hepáticas em não-cirróticos e transplante hepático. O congresso está trazendo oito convidados internacionais, a saber: Russel H. Weisner (EUA), Roger Butterworth (Canadá), Leonardo Pinchuk (Argentina), Thierry Poynard (França), Helena Cortez Pinto (Portugal), George Lau (China), Adrian Gadano (Argentina) e Jean Michael Pawlotsky (França).

P. H. - Como será a abordagem em relação a novidades terapêuticas?
Dra. Edna - Certamente o congresso trará uma quantidade imensa de novidades terapêuticas para médicos que não estejam se atualizando constantemente na área de Hepatologia. Efetivamente, nos últimos anos foram grandes os progressos e sempre surgem detalhes fundamentais ao manuseio terapêutico, que fazem toda a diferença. Não é apenas o surgimento de uma droga nova, mas todo o conhecimento de como ela deve ser administrada, sua dosagem correta, o tempo de uso, os controles a serem feitos durante sua utilização, a mudança de conduta, por vezes necessários ao êxito almejado. Felizmente, fazer medicina ou tratar pacientes não é como seguir uma receita culinária, aprendendo ou copiando uma fórmula que você pode seguir fazendo, sem modificações. Os pacientes são seres humanos complexos, que reagem diferentemente e os resultados variam normalmente de caso para caso, exigindo uma constante atualização, mesmo de profissionais experientes. Desta forma, apesar de comparecer sistematicamente aos congressos internacionais, duas vezes ao ano e a várias reuniões científicas no Brasil, além da leitura obrigatória das principais revistas científicas, sempre aprendo coisas novas em cada congresso a que compareço.

P. H. - Quais as perspectivas atuais em relação ao tratamento da hepatite B crônica e de que maneira esta questão será abordada no evento?
Dra. Edna - A hepatite B está vivendo, no momento atual, um grande “boom” em termos de novidades terapêuticas. As pesquisas nessa área continuam a pleno vapor e efetivamente novos medicamentos estão sendo testados, enquanto outros foram recentemente aprovados para uso clínico. Traremos para o congresso dois conferencistas estrangeiros a falar especificamente sobre as novidades da hepatite B, um deles procedente da China - país onde a infecção é amplamente disseminada e que tem uma das maiores experiências do mundo.

P. H. - O que será discutido sobre hepatite C?
Dra. Edna - A hepatite C é sempre a “rainha da festa”! Desperta enorme interesse pela freqüência da doença em nosso meio e em todo o mundo. Para o melhor aproveitamento do congresso por parte dos participantes, mantendo-os até o final do evento, as palestras oficiais sobre o tema, em número de quatro, duas por convidados internacionais e duas por especialistas nacionais, acontecem no último dia do Congresso, juntamente com a apresentação oral das melhores investigações científicas nacionais em sessão plenária. Mas durante todo o evento a hepatite C será lembrada e os dois simpósios de laboratórios ligados a ela acontecem no primeiro dia. Entre outros, serão abordados os temas da co-infecção com o HIV, novos agentes terapêuticos, a conduta com os não-respondedores ao tratamento com os interferons e a recidiva da hepatite C no pós-transplante.

P. H. - O que há de novo em NASH e o que os congressistas podem esperar em relação a esse assunto?
Dra. Edna - A esteatoepatite não-alcoólica, cada dia mais importante e prevalente no mundo, está sendo diagnosticada com freqüência no Brasil, sendo necessário difundir os conhecimentos sobre ela entre os profissionais médicos, para sua correta identificação e manuseio, fatores fundamentais na prevenção da cirrose, particularmente aquela antigamente denominada criptogenética. Convidamos para falar sobre o assunto uma renomada autoridade com reconhecimento internacional, procedente de Portugal. Além de discorrer sobre os mecanismos fisiopatológicos que levam ao desenvolvimento da doença, falará também do diagnóstico e condutas terapêuticas atuais. Adiantamos que, em termos de número de trabalhos científicos enviados para o congresso, esse assunto só perde para a hepatite C. Aguardem, portanto, muitas novidades com material nosso, ou seja, pesquisa brasileira.

P. H. - E quanto ao transplante de fígado?
Dra. Edna - Neste ano, acatamos a sugestão de vários cirurgiões transplantadores e vamos iniciar o congresso com um dia especialmente dedicado ao transplante hepático. Desta forma, os cirurgiões, que são sempre muito ocupados, com pouco tempo para ficar durante todo o transcorrer do evento, podem assistir ao curso cirúrgico, que ocorre no dia 18 de outubro, antes do início do congresso propriamente dito e em seguida apresentar seus trabalhos e assistir às conferências específicas sobre o tema, logo no primeiro dia. Estamos trazendo dos EUA um especialista renomado da Mayo Clinic, que irá discorrer sobre o tema do momento, qual seja: Uso das classificações MELD/PELD para alocação de fígados ao transplante. Outras três miniconferências estão programadas na área de transplante, mas a atividade que certamente é a mais polêmica, devendo chamar a atenção de todos, será uma mesa-redonda, programada para o final da tarde do primeiro dia. Para esta mesa sobre alocação de fígados para transplante convidamos tanto defensores da política atual de alocação, qual seja critério cronológico, como aqueles que defendem o critério de gravidade. Cada um dos lados terá o direito de defender suas opiniões e a platéia fará seu juízo!

P. H. - Qual será o público-alvo do evento? E quanto à expectativa de número de participantes?
Dra. Edna - O Congresso Brasileiro de Hepatologia congrega os hepatologistas brasileiros e outros médicos interessados em doenças do fígado. O evento é científico, não estando aberto à participação de leigos. Realizado a cada dois anos, o congresso costuma reunir 800 a 900 participantes. Como o interesse pela Hepatologia é crescente, esperamos e estamos preparados para receber de 1.000 a 1.200 participantes.

P. H. - Gostaria de acrescentar alguma informação?
Dra. Edna - Encerrado o prazo para inscrição de temas livres - que são os trabalhos científicos a serem apresentados de forma oral ou pôster - excluídos aqueles que não se adequarem às normas exigidas, devemos ter pouco mais de 450 trabalhos apresentados. Esta produção científica vem crescendo a cada ano. Como em anos anteriores, faremos questão de nomear comissões julgadoras para visitar e discutir com os autores os trabalhos apresentados em forma de pôster. Diferentemente do que ocorre no exterior, a procura espontânea é pequena para trabalhos apresentados como pôster, que não foram selecionados como “os melhores” para apresentação oral. Daí a importância de valorizar também os iniciantes, aprendizes e discutir com eles os dados encontrados em observações clínicas, relatos de casos ou pesquisas, mesmo que não obtiveram pontuação suficiente para a apresentação oral.