Implementando Processos em Oncologia:
Diferenciais de Qualidade e Segurança


Dra. Graziela Ferreira Escobar1 - Dra. Maria Inês Rodrigues Gato2 - Dra. Ana Paula Giorgenon3
1Farmacêutica Responsável pelo Setor de Oncologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital 9 de Julho. Presidente da Sociedade Brasileira de Farmacêuticos em Oncologia (SOBRAFO). Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas. Membro da Comissão de Farmacovigilância do Hospital 9 de Julho.
2Farmacêutica do Serviço de Farmácia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Diretora Técnico-Científica da SOBRAFO.
3Farmacêutica Assistente do Setor de Oncologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital 9 de Julho. Diretora Administrativo-Financeira da SOBRAFO. Especialista em Farmácia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


Dra. Graziela Ferreira Escobar (à esq.),
Dra. Maria Inês Rodrigues Gato e Dra. Ana Paula Giorgenon.


INTRODUÇÃO

A oncologia desenvolve-se a passos rápidos e os profissionais são desafiados a manter-se informados sobre os novos esquemas terapêuticos, conhecendo em detalhes os aspectos farmacológicos dos medicamentos em uso. Neste ponto, é de fundamental importância observar que os agentes antineoplásicos possuem, em sua maioria, estreita margem terapêutica; portanto, pequenas variações de dose podem levar a uma toxicidade inaceitável.

O grau de toxicidade é influenciado por muitos fatores, que incluem o medicamento (dose, via), esquema terapêutico, perfil do paciente e outras modalidades de tratamento concomitante. Eventos adversos, definidos como dano relacionado ao uso ou não-uso de medicamentos, ocorrem em média em 6 a 10% dos pacientes hospitalizados. Cerca de um terço desses eventos é relacionado a erros e poderiam ser prevenidos.

As elevadas taxas de cura de alguns tipos de câncer, os longos períodos de tratamento, a intensificação de doses e as terapias de ablação da medula exigem um acompanhamento mais efetivo de toda a equipe envolvida, no sentido de minimizar danos ao paciente a curto e a longo prazo.

Uma análise nos EUA revelou que os agentes antineoplásicos são a segunda classe de medicamentos mais relacionada a erros que levaram à morte do paciente.(1) Erros relacionados a medicamentos são definidos como erros desde o momento da prescrição até a administração, podendo ou não resultar em eventos adversos.(2,3)

Um estudo realizado em um hospital geral em Israel,(4) durante um período de 6 meses, detectou 160 erros relacionados a medicamentos, dos quais 60,6% foram erros de prescrição. Os principais erros detectados foram: dose incorreta (27,5%), interação entre medicamentos (20%), medicamento incorreto (12,5%), via de administração incorreta (11,2%) e freqüência incorreta (11,2%).

NOTIFICAÇÃO DE ERROS

No passado, estudos sobre erros relacionados a medicamentos eram focalizados nos farmacêuticos e enfermeiros. Barker(5) demonstrou que os erros no processo de administração pelo enfermeiro ocorriam no máximo em 20% das doses. Um estudo sobre erros graves (aqueles que causam dano ao paciente ou têm o potencial de causar dano) demonstrou que 39% deles ocorriam na fase de prescrição, 38% na fase de administração e 12% durante a dispensação pela farmácia. Outro estudo mostrou que a implementação do sistema de distribuição por dose unitária reduziu em até 80% os erros de dose de medicamentos.(2)

O público e os profissionais em geral tendem a avaliar os erros como se fossem individuais. Punir pessoas vem do conceito errôneo de que a punição levará a uma melhor performance no futuro. Uma abordagem sistêmica reconhece que todos os indivíduos podem cometer erros e para prevenir a sua ocorrência deve haver mecanismos que possibilitem uma intervenção. Na verdade, os erros são sintomas de falhas no processo e as mudanças devem ocorrer no sistema e não nos indivíduos.(2,6)

Schulmeister(7) apresentou os resultados de um questionário aplicado a 160 enfermeiros, membros da Oncology Nursing Society, em que foram descritos 140 erros, como: sub e sobredoses, erros de esquemas, medicamentos incorretos, erros de velocidade de infusão, omissão de medicamentos ou esquemas de hidratação, preparação errada, administração a paciente errado. Entre os erros descritos, 67% não resultaram em dano ao paciente e somente 3% foram reportados a programas nacionais ou aos fabricantes do medicamento. Sobrecarga de trabalho, falta de experiência e prescrições dúbias foram citadas como fatores que contribuíram para a ocorrência dos erros.

De acordo com Muller,(8) os procedimentos e os medicamentos mais suscetíveis a erros são: administração intratecal de vincristina em esquemas de leucemia, substituição inadvertida de um composto de platina por outro e de um antracíclico por outro, confusão entre dose diária e total, erros de cálculo e preparação, e manuseio de bombas de infusão.

RECOMENDAÇÕES PARA ADEQUAÇÃO DE PROCESSOS

A publicação de vários casos de administração intratecal de vincristina, inclusive com óbitos, levou à elaboração de recomendações específicas para a administração de medicamentos por via intratecal: procedimento realizado apenas por pessoal treinado, experiente e autorizado, e dispensação e administração em momentos diferentes para evitar confusão.

Desde 1996 foram elaboradas e publicadas recomendações(2,3,8-11) para minimizar os erros e, conseqüentemente, os danos relacionados ao tratamento oncológico. Estas recomendações abrangem todas as etapas do tratamento, mas identificam como pontos críticos do processo a prescrição (elaboração e avaliação), a reconstituição e a administração.(12) Destacamos a seguir algumas recomendações fundamentais para a elaboração da prescrição médica:

1. Descrição dos esquemas terapêuticos utilizados, contendo informações sobre os dias do ciclo, intervalo entre ciclos, dose total e dose diária em função da superfície corpórea ou peso.
2. Orientações acerca da administração, como tempo e seqüência de infusão.
3. Informações específicas do paciente a partir dos quais as doses foram calculadas (peso e altura, superfície corpórea).
4. Descrição dos medicamentos antineoplásicos com nomenclatura uniforme e sem abreviações.
5. Padronização de unidades dasdoses.
6. Informações sobre a administração de antineoplásicos orais, como interação com alimentos e restrições dietéticas.

A avaliação da prescrição médica deve estar sujeita a dupla checagem (farmacêutico e enfermeiro) antes do preparo e administração. Cada profissional deve verificar, independentemente, os aspectos relacionados: comparação com uma referência aceitável, superfície corpórea atualizada, dose final de cada medicamento, via de administração (central ou periférica), tempo de infusão e diluente, regime antiemético e outros medicamentos de suporte, comparação com prescrições prévias, modificações de dose justificadas, parâmetros normais para os resultados laboratoriais e adequação de dose requerida.(3)

A introdução de sistemas informatizados elimina os erros de escrita manual e de transcrição e também torna possível a checagem automática de doses, interações droga-droga e características do paciente, tais como insuficiência renal ou hepática.(2,9)

ATUAÇÃO DA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL EM TERAPIA ANTINEOPLÁSICA

A implementação da Equipe Multiprofissional em Terapia Antineoplásica (EMTA), obrigatória em todos os serviços de oncologia no Brasil, conforme regulamento técnico publicado pela Anvisa em 2004,(13) composta por médico, farmacêutico e enfermeiro, tem como uma de suas principais atribuições a elaboração de protocolos de administração de antineoplásicos. Em estudo publicado em 2002(6) observou-se que a adoção de protocolos promoveu administração segura de antineoplásicos em diversos aspectos. Inicialmente, reduziu as dúvidas na prescrição e a checagem ficou mais fácil e rápida. Mais importante, a padronização facilitou a identificação de erros, pois todos os profissionais sabiam quais variações seriam aceitáveis.

Em uma análise das prescrições por um período de dez meses observou-se que, apesar dos protocolos não padronizados serem de apenas 13% entre todas as prescrições, elas estavam envolvidas em 33% dos erros reais e interceptados.(6) Com base nestas informações, recomenda-se que protocolos não padronizados se iniciem somente quando especialistas e clínicos estiverem disponíveis, evitando a administração aos finais de semana e durante o período noturno.(3)

A comunicação entre os profissionais da equipe, relacionada a novos esquemas de tratamento é fundamental, principalmente em protocolos de pesquisa clínica.(3) Os esquemas propostos devem ser revisados quanto à viabilidade, consistência e clareza das informações relacionadas aos medicamentos do estudo, formulação disponível e adequação ao termo de consentimento do paciente. Uma avaliação realizada em 1998 no Dana-Faber Cancer Institute sobre o uso de ciclofosfamida e mesna em pesquisa clínica identificou que existiam 23 regimes diferentes de administração em apenas 14 estudos em andamento. A elaboração de uma lista de verificação é útil para informar as modificações necessárias aos autores e ao investigador principal. Nos casos de utilização de novas opções terapêuticas, recomenda-se o desenvolvimento de guias de formulação, preparação e administração para distribuição aos profissionais envolvidos.(14)

GESTÃO EFICIENTE DE RECURSOS

Existe uma distância considerável entre os resultados obtidos em estudos clínicos e a prática diária. Numa metanálise de estudos randomizados de antieméticos conduzida por um painel de especialistas do Cancer Care Ontario, o uso de um antiemético 5HT3 após 24 horas foi associado com um risco absoluto de redução de vômito em apenas 5% comparado com a terapia padrão. Uma vez que esses agentes têm um custo de aquisição considerável, é economicamente importante limitar seu uso às primeiras 24 horas.

O objetivo deste estudo foi promover o uso de ondansetrona dose única apenas nas 24 horas após a quimioterapia e o uso de antieméticos não-5HT3 (como dexametasona e domperidona) para o controle de náusea e vômito tardios. Das 183 prescrições avaliadas, farmacêuticos identificaram 49 fora do esquema proposto e fizeram contato com o médico para a modificação terapêutica. O benefício econômico para a instituição somente após esta intervenção significou mais que os gastos com os profissionais envolvidos, tempo de treinamento e custos de manutenção. Os resultados deste estudo revelam que a implementação de protocolos cuidadosamente elaborados pode trazer benefícios financeiros para a instituição e, mais importante, melhora na qualidade de atendimento ao paciente.(15)

QUALIDADE PERCEBIDA PELO PACIENTE

A educação do paciente é parte importante no tratamento oncológico. Recomenda-se o desenvolvimento de folhetos informativos contendo orientações sobre possíveis efeitos colaterais da quimioterapia (náusea, vômito, febre, mucosite, fadiga, queda de cabelo, alterações hematológicas), com linguagem simples para facilitar o entendimento e contato dos profissionais para os casos de necessidade de auxílio. Um estudo realizado com pacientes idosos indicou que o folheto distribuído antes de iniciar a quimioterapia foi bem aceito e utilizado pela maioria dos pacientes. Observou-se ainda que vários pacientes já haviam utilizado o folheto por mais de duas vezes no período de um mês.(16)

Um estudo piloto, com 15 pacientes com câncer de mama e idade média de 79 anos, indicou que as pacientes expressaram um alto nível de satisfação com a intervenção de uma equipe multiprofissional composta por enfermeiro, farmacêutico, assistente social e nutricionista, pois tinham a impressão de “estarem sendo cuidadas”.(17)

CONCLUSÃO

A implementação de processos em oncologia é fundamental para a adequação à realidade dos serviços de saúde no Brasil. A RDC/Anvisa 220 de 2004 estabeleceu as atribuições dos profissionais em cada etapa do processo e a elaboração de protocolos de atendimento. Programas de qualidade em saúde, como a Organização Nacional de Acreditação, consideram essencial a existência de normas e rotinas descritas para as atividades críticas. As fontes pagadoras buscam a padronização de procedimentos para minimizar custos e evitar excessos. Assim, cabe aos profissionais envolvidos a elaboração e o acompanhamento de protocolos de atendimento em oncologia.

Dentre os processos, a implementação de programas de redução de erros deve estar baseada em metodologia clara e que possibilite rápida coleta de dados. A mensuração de eventos adversos é uma alternativa complicada, pois a ocorrência relativamente baixa pode levar a uma coleta de dados prolongada. Uma alternativa é mensurar os “potenciais” eventos adversos, ou ainda qualquer erro identificado numa etapa do processo, que não levaria necessariamente a um dano ao paciente.

Algumas mudanças de conceitos são muito efetivas ao se iniciar um planejamento de redução de erros: reduzir a confiabilidade na memória, padronizar procedimentos, simplificar, identificar os pontos críticos para verificação e prestar atenção nos fatores humanos. É fundamental que a notificação de erros não esteja relacionada a sistemas punitivos, mas a programas de melhoria contínua de processos.

Finalmente, recomendamos a atualização constante dos profissionais envolvidos no atendimento ao paciente oncológico e a busca de sistemas de informação confiáveis em todas as etapas do processo.

REFERÊNCIAS

1. Phillips J, Beam S, Brinker A et al. Retrospective analysis of mortalities associated with medication errors. Am J Health Syst Pharm 2001;58: 1835-41.
2. Leape LL, Kabcenell AI, Gandhi TK et al. Reducing adverse drug events: lessons from a breakthrough series collaborative. Jt Comm J Qual Improv 2000;26:321-31.
3. Fischer DS, Alfano S, Knobf T et al. Improving the cancer chemotherapy use process. J Clin Oncol 1996;14:3148-55.
4. Lustig A. Medication error prevention by pharmacists- an Israeli solution. Pharm World Sci 2000;22;21-5.
5. Barker K. The effects of an experimental medication system on medication errors and costs. Am J Hosp Pharm 1969;26;324-33.
6. Womer RB, Tracy E, Soo-Hoo W et al. Multidisciplinary systems approach to chemotherapy safety: rebuilding processes and holding the gains. J Clin Oncol 2002;20:4705-12.
7. Schulmeister L. Chemotherapy medication errors: descriptions, severity, and contributing factors. Oncol Nurs Forum 1999;26:1033-42.
8. Müller T. Typical medication errors in oncology: analysis and prevention strategies. Onkologie 2003;26:539-44.
9. Goldspiel BR, DeChristoforo R, Daniels CE. A continuous-improvement approach for reducing the number of chemotherapy-related medication errors. Am J Health Syst Pharm 2000;57:S4-S9.
10. Kohler DR, Montello MJ, Green L et al. Standardizing the expression and nomenclature of cancer treatment regimens. Am J Health Syst Pharm 1998;55:137-44.
11. Cohen MR, Anderson RW, Attilio RM et al. Preventing medication errors in cancer chemotherapy. Am J Health Syst Pharm 1996;53:737-46.
12. Aguirrezábal AA, Alvarez LM, Yurrebaso IMJ et al. Detección de errores en la prescriptión de quimioterapia. Farm Hosp 2003;27:219-23.
13. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RDC n° 220 de 21 de setembro de 2004. Regulamento Técnico de Funcionamento dos Serviços de Terapia Antineoplásica.
14. Sievers TD, Lagan MA, Bartel SB et al. Variation in administration of cyclophosphamide and mesna in the treatment of childhood malignancies. J Pediatr Oncol Nurs 2001;18:37-45.
15. Dranitsaris G, Leung P, Warr D. Implementing evidence based antiemetic guidelines in the oncology setting: results of a 4-month prospective intervention study. Support Care Cancer 2001;9:611-8.
16. Jazieh AR, Brown D. Development of a patient information packet for veterans with cancer receiving chemotherapy. J Cancer Educ 1999;14: 96-8.
17. Extermann M, Meyer J, McGinnis M et al. A comprehensive geriatric intervention detects multiple problems in older breast cancer patients. Crit Rev Oncol Hematol 2004;49:69-75.