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Dr. Carlos Starling
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O Infectologista Moderno Frente aos
Desafios do Passado, Presente e Futuro
Os habitantes mais antigos deste planeta e a raiz de todos os seres vivos são microrganismos com os quais convivemos desde o nascimento até a morte.
Com uma espetacular capacidade de multiplicação e adaptação, esses minúsculos seres se diferenciaram ao longo de milhares de anos, dando origem às espécies vegetais e animais que compõem a nossa biodiversidade.
O conhecimento humano sobre o mundo microbiológico começou há pouco mais de 150 anos, ou seja, apesar de todo avanço científico acumulado nesse período, os nossos antepassados nos conhecem muito melhor que nós a eles.
Eles nos conhecem desde a origem e essência. Nós, os conhecemos de forma fragmentar e superficial. Desta maneira, a relação homemmicrorganismos, ou melhor, microrganismoshomem, colocada de forma polarizada é por natureza desfavorável à espécie humana. Em nosso próprio corpo não somos maioria. Ou seja, existem mais microrganismos recobrindo nossa pele, mucosas e vivendo até mesmo na intimidade de nosso sistema imunológico do que células originalmente nossas. Somos gerados e nascemos estéreis. Os primeiros habitantes de nosso planeta corpo são oriundos da microbiota materna ou das mãos daqueles que nos manipulam pelas primeiras vezes. Com sete dias já estamos colonizados pelos microrganismos com os quais vamos conviver por toda a vida.
Ao longo dos anos, vamos agregando ao nosso patrimônio microbiológico alguns vírus, que na maioria das vezes ficarão contidos pelo nosso sistema imunológico, da mesma forma que as bactérias que permanecem em nossas superfícies. Esse dinâmico equilíbrio microbiológico pode nos ser desfavorável, à medida que nossas barreiras naturais forem violadas pelas adversidades do ambiente. Nestes momentos, os nossos quase despercebidos habitantes tenderão a cumprir o seu papel fundamental na cadeia alimentar e fazer o “clearance” de nossa carcaça do ambiente, o que é essencial para a continuidade da vida no planeta. Portanto, a relação dos microrganismos com todos os outros seres vivos é pautada nos princípios éticos de um contrato natural, cujo objetivo maior é a preservação e continuidade da vida.
Há cerca de 70 anos apenas a tecnologia entrou de forma mais contundente nesta relação, com o desenvolvimento e utilização em larga escala dos primeiros antimicrobianos. Penicilinas e companhia limitada revolucionaram o mundo. Elevaram a perspectiva de vida do homem em mais de dez anos e fizeram circular riqueza pelos continentes. A busca pela vida e por oportunidade de negócios gerou uma frenética corrida tecnológica. Criou-se um complexo médico assistencial tão energizado, criativo e imprevisível quanto o existente nos oceanos primitivos.
Maravilhas tecnológicas foram criadas num espaço de tempo menor que a perspectiva de vida do brasileiro de hoje e na metade dos anos de existência do ser humano mais velho do planeta. Esse verdadeiro “boom paranóico-desenvolvimentista” por vezes entorpece a nossa capacidade de perceber que 70 anos não significam absolutamente nada frente a experiência e evolução de milhões de anos dos microrganismos na face da Terra.
Num curto período de tempo, passamos da euforia de dominarmos o mundo microbiológico à realidade dos fatos: estamos apenas começando.
As drogas que pareciam milagrosas e inesgotáveis estão se tornando obsoletas frente aos mecanismos de resistência microbiana. Além disso, o seu emprego de forma indiscriminada em medicina humana, veterinária e agronomia tem se tornado um sério problema micro e macroecológico, a ponto de falarmos neste momento no início de uma era pós-antibiótico.
Entretanto, o que a princípio pode parecer apocalíptico, na realidade é um grande desafio, e como tal, uma excepcional OPORTUNIDADE.
Temos a chance de revermos desde as moléculas que desenvolvemos até os princípios éticos de sua utilização. Aliás, são estes os princípios que farão a diferença na Tecnologia do Futuro.
Flashs Gordons e Super-Homens somente serão heróis se de fato estiverem disponíveis para salvar a maioria das pessoas e se forem acionados de uma maneira racional e fundamentalmente ÉTICA.
Portanto, a Tecnologia do Futuro, para fazer frente à divina experiência microbiana, deverá ser essencialmente humilde, ética e equânime...
Neste momento especial em que nos reunimos para o 14° Congresso Brasileiro de Infectologia, a Revista Prática Hospitalar mais uma vez nos brinda com um conjunto de temas infectológicos da maior importância e que espelham a real dimensão do trabalho do infectologista moderno frente aos desafios do passado, presente e futuro.
Diante dos problemas do passado, temos que ser persistentes. Frente às nossas questões do presente, temos que ser resistentes. Para enfrentarmos os desafios do futuro, teremos que aprender com nossas origens a sermos multirresistentes.
Dr. Carlos Starling
Infectologista. Coordenador do Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecções Hospitalares dos Hospitais Vera Cruz, Life Center, Baleia, São Francisco de Assis e Hospital Universitário São José de Belo Horizonte. Mestre em Medicina e Coordenador de Extensão e Pesquisa da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana de Vespasiano, MG.
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