O CoBEU (Comitê Brasileiro de Estudos em Uro-Oncologia), formado por um grupo de médicos urologistas e oncologistas, foi criado com o intuito de realizar e divulgar estudos em uro-oncologia baseados nas melhores evidências científicas disponíveis na literatura, levando, assim, informações úteis e de alta qualidade para os especialistas que atuam na área.
“Em todos os tipos de publicações, mas principalmente em urologia, existem estudos que não seguem normas científicas de qualidade. Para estudar determinada droga, por exemplo, é preciso haver um rigor científico muito grande, e as nossas opiniões devem se basear em trabalhos de alta qualidade”, diz o professor da Disciplina de Urologia da Unicamp, Dr. Nelson Rodrigues Netto Jr., presidente do CoBEU, que concedeu uma entrevista à revista Prática Hospitalar para falar sobre a criação do Comitê e a sua importância na comunidade médica.
Prática Hospitalar - Com que objetivos foi criado o CoBEU?
Prof. Dr. Nelson Rodrigues Netto Jr. - O CoBEU foi criado com o objetivo de divulgar os estudos de alta qualidade em uro-oncologia, que tenham realmente um embasamento científico, para que não surjam recomendações com base em estudos de muito baixo critério. Em linhas gerais, pesquisamos, filtramos e divulgamos as recomendações em uro-oncologia, baseadas no melhor nível de evidência possível, e que representam a opinião do grupo. Na realidade, quando selecionamos esses estudos, procuramos obter os dados mais importantes e, portanto, de maior nível de evidência; às vezes há 500 trabalhos sobre um mesmo tema; então, selecionamos esses trabalhos e filtramos até chegar a, por exemplo, 50 ou 60, que são aqueles considerados de grande importância científica.
P. H. - Quais os critérios que o CoBEU utiliza na seleção e divulgação desses estudos?
Dr. Netto - Em todos os tipos de publicações, mas principalmente em urologia, existem estudos que não seguem normas científicas de qualidade. Para estudar determinada droga, por exemplo, é preciso haver um rigor científico muito grande, e as nossas opiniões devem se basear em trabalhos de alta qualidade, estudos que sejam realizados de forma randomizada, que tenham um grupo controle, casuística grande e tempo longo de seguimento. Baseado nos trabalhos que são selecionados, fazemos, então, as diversas observações e recomendações do grupo.
P. H. - Como são organizadas as reuniões do Comitê?
Dr. Netto - Recebemos com cerca de um mês de antecedência o assunto que devemos abordar e cada um de nós vai estudar com o seu grupo esse assunto. Sempre há um tema predeterminado, são tópicos bastante específicos, como por exemplo dentro do tema câncer de próstata, podemos selecionar os tópicos câncer de próstata localizado ou metastático, etc. Se formos discutir métodos diagnósticos, este é um assunto muito amplo, então temos de especificar o tema, diagnóstico por imagem ou laboratorial, pois realmente é um assunto muito vasto. Isso depois é apresentado em uma reunião, com os diversos membros do CoBEU, e cada um apresenta o seu trabalho, que é comentado pelos demais. Essas reuniões são feitas com urologistas, oncologistas, radioterapeutas e, conforme o tema, podem ser acrescentadas outras especialidades, que, no entanto, não são indivíduos fixos do comitê, mas têm participação significativa em determinadas reuniões. Nessa reunião, o material é escoimado, é enviado para publicação e chega ao especialista. É realmente um trabalho bastante meticuloso e a vantagem desse tipo de procedimento é que ele permite profunda análise do assunto, conseguindo-se uma aproximação de opiniões.
P. H. - Em uro-oncologia há muitas divergências de opiniões entre os diferentes especialistas?
Dr. Netto - As divergências de opiniões existem não só entre diferentes especialidades, como também entre os próprios urologistas. Entretanto, as opiniões pessoais de cada indivíduo são pequenas frente a fatos profundamente estudados. Por exemplo, com relação ao tumor de próstata inicial, temos de oferecer para o paciente dois tipos de tratamento, a radioterapia ou a prostatectomia radical, e poderia ser questionado se dentro da radioterapia estaria incluída a braquiterapia, que normalmente não é indicada, porque o tempo de estudo ainda não é adequado. De início, poderá haver uma tendência do urologista achar que a cirurgia é a melhor opção; por outro lado, o radioterapeuta pode achar que a radioterapia é melhor. Portanto, temos de oferecer as duas opções para o paciente, mas mostrar os resultados de cada escolha. Outro exemplo é com relação à hormonioterapia. Houve uma época em que se oferecia hormonioterapia ao paciente antes de operar a próstata, porque se acreditava que o resultado era melhor; no entanto, já se verificou que os resultados desse procedimento não são bons, tanto que hoje a terapêutica hormonal neo-adjuvante está formalmente contra-indicada em casos de câncer localizado da próstata.
P. H. - Qual a análise que o senhor faz hoje da atuação do CoBEU desde a sua criação?
Dr. Netto -Com a experiência que foi se desenvolvendo ao longo do tempo, percebemos que temos de ser o mais sintéticos possível. Essa é a melhor maneira de proceder e então temos procurado atuar de forma mais concentrada, com exposições que sejam melhor absorvidas pelos colegas e sem envolvimentos pessoais, sempre nos baseando numa literatura de evidências científicas. Com isso, o Comitê está tendo uma aceitação muito boa por parte dos especialistas, recebemos sempre comentários elogiosos ao nosso trabalho, porque a cada dia os médicos estão vendo que a seleção criteriosa do que eles irão estudar é muito importante no seu dia-a-dia. Portanto, cada vez mais eu acredito que a medicina deve ser uma ciência baseada em evidências científicas de alta qualidade e se isentar ao máximo de ser baseada na experiência pessoal. Dessa forma, creio que o CoBEU vem realmente colaborando bastante com a especialidade e ajudando diretamente o médico, e através do médico os pacientes e a população como um todo.
P. H. - As recomendações em uro-oncologia mudam muito?
Dr. Netto - Sim, as recomendações mudam bastante, primeiro porque o diagnóstico melhorou e deve melhorar ainda mais. Os casos vêm sendo diagnosticados mais precocemente. Por exemplo, as biópsias estão sendo hoje em dia indicadas com níveis de PSA mais baixos, que no passado admitia-se não haver câncer. Porém, verifica-se que existe câncer em uma porcentagem importante de casos. Dessa forma, surge um novo conceito de avaliarmos os doentes, que passam a ser investigados mais precocemente, não se esperando até o PSA aumentar além de um certo limite (que antigamente era quatro). Novas condutas são oferecidas com diferente significativo em termos de tratamento. Os países e culturas mundiais são distintos, e nem sempre há uma aceitação total. A informação vai sendo digerida aos poucos. Até pouco tempo, em casos que não respondiam mais ao tratamento hormonal, o tratamento com quimioterapia era muito ruim: bastante agressivo, tóxico e pouco efetivo. A mudança que houve com a introdução de novos medicamentos foi muito importante. As drogas ainda são tóxicas, porém os resultados são melhores, havendo um aumento na sobrevida global dos pacientes. Assim, estamos assistindo a uma fase de grande e rápida evolução na urologia.
P. H. - Qual o tema mais pesquisado em uro-oncologia e quais os maiores avanços nessa área?
Dr. Netto - A grande maioria dos estudos publicados em uro-oncologia tem sido sobre câncer da próstata, e a razão deve-se às muitas dúvidas em relação ao diagnóstico e ao tratamento; é um assunto que está sempre palpitando e motivando a realização de pesquisas. Creio que o grande mérito da uro-oncologia é saber selecionar o paciente adequado para determinado o tipo de tratamento e o melhor momento para que ele seja realizado. Os tumores avançados geralmente não podem ser tratados por um único procedimento, e esses procedimentos devem visar sempre uma melhor qualidade de vida e maior sobrevida ao paciente. Portanto, os maiores avanços em uro-oncologia foram, sem dúvida nenhuma, proporcionar aos pacientes um diagnóstico precoce, um tratamento mais efetivo com repercussão na qualidade de vida e aumento na taxa de sobrevida.