As Interfaces da Anestesiologia


Entrevista com o Dr. Marciano de Sousa Nóbrega
Presidente do 52º Congresso Brasileiro de Anestesiologia.


Por Flávia Lo Bello


Entre os dias 12 e 16 de novembro, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) promoverá, em Goiânia, GO, o 52º Congresso Brasileiro de Anestesiologia - 2º Congresso de Dor da SBA - 1º Congresso de Ressuscitação e Reanimação da SBA. Contando com a participação de renomados convidados nacionais e internacionais, o evento terá atividades interligadas a todas as “Interfaces da Anestesiologia”, tais como dor, terapia intensiva, avaliação pré-anestésica, medicina pré-hospitalar, anestesia regional, cooperativismo, medicina perioperatória e ressuscitação.

De acordo com o presidente do Congresso, Dr. Marciano de Sousa Nóbrega, será dado destaque ao tema Ressuscitação e Reanimação, com a realização do X Fórum Latino-Americano de Ressuscitação, além de cursos pré-congresso e de atividades teóricas dentro da programação do evento. “Existem muitos anestesiologistas atuando em sistemas de resgate no Brasil, como o SAMU e o Corpo de Bombeiros, portanto, daremos grande ênfase neste assunto, através de cursos como o ACLS, BLS, SAVA (Suporte de Vida Avançado em Anestesia), e com um treinamento em massa para a população”, ressalta Dr. Nóbrega, que, nesta entrevista à Prática Hospitalar, fala sobre os grandes destaques do 52º Congresso Brasileiro de Anestesiologia.

Prática Hospitalar - Qual será o grande desafio na realização deste 52º Congresso Brasileiro de Anestesiologia?
Dr. Marciano de Sousa Nóbrega - Goiânia não sedia um evento nacional em anestesia há mais de 40 anos, precisamente o último evento foi realizado em 1961, e nessa época não se chamava Congresso Brasileiro, funcionava apenas como uma jornada nos moldes atuais. Conciliar interesses pessoais é o grande desafio na execução de um evento deste porte e ultrapassamos fácil este obstáculo; hoje, o Congresso é uma realidade, já está pronto para acontecer.

P. H. - Que temas o senhor classifica de maior importância na programação científica do evento?
Dr. Nóbrega - A ressuscitação e a terapia intensiva interligadas à anestesiologia. Hoje existem muitos anestesistas que atuam em terapia intensiva, o que é muito bom para a nossa área, e queremos atrair ainda mais médicos.

P. H. - Como será a participação dos convidados internacionais no evento?
Dr. Nóbrega - Convidamos profissionais que vivem a anestesia diária, com grande experiência prática. Não é nosso objetivo trazer teóricos ao Congresso, isto se consegue em revistas; queremos pessoas que nos mostrem como trabalhar diretamente com o paciente. O nome de maior relevância é o Dr. Archie Brain, inventor da máscara laríngea, que é muito usada atualmente e está em fase de ascensão na anestesia e na reanimação.

P. H. - Como será o 2º Congresso de Dor da SBA?
Dr. Nóbrega -
A dor tornou-se uma área de extrema importância para a anestesiologia brasileira e muitos médicos estão trabalhando com exclusividade neste campo. Somos os precursores no tratamento da dor aguda e crônica e não poderíamos deixar de abordar este tema durante o Congresso. Traremos os maiores expoentes da anestesia e de outras áreas para debater sobre dor. Como convidado de destaque, teremos a participação do Dr. Manoel Jacobsen, professor renomado de São Paulo, com inúmeros livros e trabalhos publicados na área de tratamento da dor. O Congresso de Dor inserido dentro do Congresso de Anestesiologia já está firmado e será uma rotina anual. Quanto à programação, abordaremos o máximo de temas, desde a dor em consultório até a dor em situações especiais, como no trauma extra-hospitalar.

P. H. - Na sua opinião, a atuação das clínicas/setores de dor é satisfatória? Como melhorar essa atuação?
Dr. Nóbrega -
Pessoalmente, eu não trabalho diretamente com dor em nível ambulatorial, mas conheço inúmeros serviços que fazem isto há muito tempo, com grandes resultados, e o que nos impressiona é a quantidade de novos serviços que estão surgindo, melhorando em muito o atendimento. É imprescindível que todo hospital de médio e grande porte tenha um serviço de dor ativo, tanto para o tratamento da dor aguda como crônica. Existe um grande investimento da indústria farmacêutica nesta área, o que irá melhorar bastante o conhecimento no estudo da dor. Porém, é necessário que a população seja conscientizada desta nova opção, pois existem especialistas que demoram a encaminhar pacientes para tratar de dor com os anestesiologistas.

P. H. - Que grandes novidades terapêuticas serão apresentadas durante o evento?
Dr. Nóbrega -
Novidades nunca faltam em um Congresso de Anestesiologia. Temos conhecimento de um novo anticoagulante oral, sistemas para administração inalatória de anestésicos com bomba de infusão, reduzindo a quantidade administrada, anestésicos locais em novas formulações e, principalmente, equipamentos de última geração que chegaram ao Brasil este ano.

P. H. - O que será discutido sobre o tema anestesia ambulatorial?
Dr. Nóbrega -
Esperamos que ninguém saia do Congresso com dúvidas, porque existe uma programação sobre as rotinas básicas até a criação de centros especializados em anestesia ambulatorial. Atualmente, mais de 50% das anestesias realizadas são ambulatoriais; iremos discutir amplamente a respeito de drogas e técnicas para este fim.

P. H. - Qual a importância de se discutir aspectos legais em anestesiologia e o que será abordado de mais significativo em relação a este tema?
Dr. Nóbrega -
Hoje a medicina está na mídia quase diariamente. Discussões sobre prevenção de acidentes, evolução de novas terapias, seguros de risco profissional, defesa médica, tudo isto tem de ser colocado sempre em pauta. Os médicos ficaram muito tempo na retaguarda, sendo processados por atos muitas vezes injustamente e eles não estão preparados para isso. Então, há que se mostrar como se portar diante de um processo. Preparamos um painel sobre um possível processo, no qual o médico conhecerá os trâmites legais para não ficar perdido em meio a toda a burocracia que se cria. Além disso, discutiremos sobre transfusões em pacientes testemunhas de Jeová, seguro profissional e risco profissional.

P. H. - O que será abordado de mais importante no 1º Congresso de Ressuscitação e Reanimação da SBA?
Dr. Nóbrega -
A ressuscitação deveria ser discutida e ensinada anualmente para todos os médicos, pois não é possível que se formem profissionais que nunca realizaram uma massagem cardíaca ou que não estejam preparados para atender casos de simples urgência em ambiente extra-hospitalar. Existem muitos anestesiologistas atuando em sistemas de resgate no Brasil, como o SAMU e o Corpo de Bombeiros, portanto, daremos grande ênfase neste assunto, com cursos como o ACLS, BLS, SAVA (Suporte de Vida Avançado em Anestesia) e, inclusive, com um treinamento em massa para a população. Também traremos cardiologistas para abordarem as últimas novidades nesta área e no evento serão lançadas as novas rotinas do ACLS 2005.

P. H. - Qual a sua opinião sobre a anestesiologia brasileira e quais os maiores desafios que estes especialistas têm pela frente?
Dr. Nóbrega -
A anestesiologia brasileira é uma das melhores do mundo, temos profissionais de alto nível, com centros de ensino coordenados pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia que não deixam a desejar a nenhum outro país. Acho que temos a melhor experiência mundial em anestesia regional. Creio que os maiores desafios que temos pela frente são conseguir que trabalhemos com menos estresse, em ambientes seguros e com boa remuneração. Estamos em contínua luta com o sistema de saúde para tentar conseguir condições ideais de trabalho.