A educação continuada é uma ferramenta fundamental para o controle da infecção hospitalar. Apesar de muito propagada em livros e guias, esta medida tão simples e de baixo custo é muitas vezes negligenciada e até mesmo esquecida no dia-a-dia do profissional da saúde.
Por que medidas simples e amplamente conhecidas, como higiene das mãos, são tão difíceis de serem seguidas? Vários estudos em hospitais americanos e europeus demonstram que a adesão à higiene das mãos varia de 29 a 48%, dependendo do tipo de unidade de atendimento do paciente (tabela 1). Fatores que aumentam a adesão à higiene das mãos são: disponibilidade e fácil acesso às pias e/ou álcool gel, número de profissionais por paciente e envolvimento dos profissionais da saúde com a unidade.(1-4) Estudos observacionais demonstraram que a adesão à higiene das mãos varia também de acordo com a categoria do profissional de saúde, sendo maior entre as equipes da enfermagem e fisioterapia e menor entre os médicos. Estudo observacional de 163 médicos durante 887 oportunidades de cuidados de 573 pacientes demonstrou que a adesão à higiene das mãos foi de 57%; no geral, entretanto, ela foi maior entre os clínicos (87%) comparados aos anestesiologistas (23%).(4) Fatores de risco associados com menor adesão à higiene das mãos são atividades associadas com alto risco de transmissão cruzada, determinadas especialidades médicas, como cirurgia, anestesiologia, e terapia intensiva e sexo masculino.(4) Estudos também demonstraram que a baixa adesão à higiene das mãos não está diretamente associada ao conhecimento teórico, mas sim à incorporação desse conhecimento à prática diária. Alguns estudos evidenciaram que durante campanha de higiene das mãos habitualmente ocorre um aumento da adesão à higiene das mãos, que retorna aos níveis basais geralmente seis meses após a campanha.(4,5) Como poderemos então mudar essa realidade? A experiência de Pittet et al. na Suíça de seguir as sugestões das equipes de cada unidade na confecção dos cartazes de higiene das mãos é muito interessante e mostra a importância do envolvimento do profissional da unidade para que ocorra a incorporação do conhecimento. Qual seria então a melhor tática para chamar a atenção do profissional da saúde? Estudo recentemente publicado explora a importância de reforçar o lado positivo da ação, para que a mesma seja incorporada pelo profissional da saúde.(6)

Outras experiências mostram que a educação é uma intervenção de baixo custo e muito bem-sucedida na redução de taxas de infecção hospitalares.(7-10) Medidas simples como discussão das taxas de infecção de feridas cirúrgicas com equipes de cirurgiões e taxas de infecções de corrente sangüínea nas unidades de terapia intensiva podem ter resultados imediatos na redução das taxas.(7-13) Nettleman et al.(14) demonstraram redução da taxa de infecção nosocomial causada por S. aureus resistente a oxacilina de 1,0 para 0,5 casos por 1.000 pacientes dias (p < 0,01) com a implementação de módulo educacional sobre importância da higiene das mãos, discussão das taxas e culturas periódicas das mãos da equipe de saúde.
Estudo de intervenção educacional desenvolvido na Argentina demonstrou a redução da taxa de infecção de trato urinário de 21,3 para 12,39 por 1.000 cateter vesicais/dias em duas unidades de terapia intensiva (UTI) (p = 0,006).(15)
O guia de prevenção de infecção de corrente sangüínea (ICS) relacionada a cateter do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomenda a educação dos profissionais de saúde como uma importante ferramenta que deve ser utilizada na prevenção das ICS, classificando esta medida baseada no grau de evidência em categoria IA.(16) Alguns trabalhos mostram uma diminuição importante das complicações relacionadas aos cuidados do cateter após intervenção educacional. (11-13)
Intervenção educacional abordando boas práticas na prevenção de ICS realizada em UTI com 19 leitos, envolvendo médicos e enfermeiros, conseguiu reduzir a taxa de ICS de 9,4 por 1.000 cateteres/dia para 5,5 por 1.000 cateteres/dia.(13) Outro estudo realizou uma intervenção com realização de pré-teste para avaliar o conhecimento, um módulo educacional abordando fatores de risco e condutas práticas associadas com infecção de corrente sangüínea e cuidados com o CVC em uma UTI cirúrgica de 18 leitos. Toda a equipe da unidade participou, realizando testes antes e após a aplicação do módulo educativo. Cartazes reforçando as informações do módulo educativo foram colocados na unidade. A taxa de infecção de corrente sangüínea caiu 66% de 10,8 para 3,7 por 1.000 CVC-dias (p<0.001).(12)
No Brasil, um trabalho realizado em UTI de um hospital escola, onde as taxas de ICS eram acima de 20 por 1.000 cateteres, que aplicou medidas educacionais como discussão mensal das taxas, aula de higiene das mãos, padronização de condutas, cartazes na UTI e etiquetas com lembretes nos cateteres (figura 1) conseguiu reduzir em 40% a taxa de ICS.(17)

Figura 1. Etiqueta CVC
Um questionário enviado para 526 clínicos em vários hospitais americanos demonstrou que a adesão ao uso de barreira máxima e ao tipo de anti-séptico utilizado na inserção de cateter venoso estava associada com a disponibilidade dos mesmos no momento da passagem do cateter e não com o conhecimento sobre a recomendação do seu uso pelo guia de prevenção de ICS do CDC.(18)
Um ponto fundamental na prevenção e controle das infecções hospitalares é o conhecimento da realidade local. Cada hospital deve conhecer a sua taxa e desenvolver guias de prevenção de infecção hospitalar. Entretanto, não basta desenvolver todas essas atividades, já que a adesão às mesmas não depende apenas da divulgação do conhecimento, mas sim da incorporação desse conhecimento na rotina dos diferentes serviços. A incorporação do conhecimento e o aumento da adesão às boas práticas de atendimento do paciente hospitalizado são um desafio para todo profissional da saúde que trabalha com a prevenção e controle das infecções hospitalares.
REFERÊNCIAS
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