Informática em Controle de Infecção Hospitalar


Dra. Cláudia Murta de Oliveira
Médica Infectologista do Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar do
Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte - MG.


O papel do epidemiologista hospitalar a cada dia torna-se mais amplo, não apenas pelo aumento do número de pacientes hospitalizados, mas sobretudo pela complexidade destes. São idosos com múltiplas co-morbidades, pacientes imunodeprimidos, politraumatizados graves, prematuros extremos. Cada um destes grupos de pacientes apresenta características próprias que trazem consigo maior risco de adquirir infecção, além de tempo prolongado de internação, muitas vezes em unidades de terapia intensiva e com monitorização invasiva. A avaliação da qualidade de assistência a partir de indicadores de resultados, como no caso das infecções hospitalares, fica portanto bastante comprometida devido à extrema heterogeneidade da população assistida com distintos riscos intrínsecos (vulnerabilidade) para a ocorrência do evento monitorado.

Com o intuito de permitir comparações das taxas com referenciais externos (outros serviços, bancos de dados de órgãos governamentais, como, por exemplo, o NNISS do CDC), torna-se necessária a coleta de enorme gama de informações, como parâmetros de pacientes cirúrgicos (ASA, tempo de ferida aberta, potencial de contaminação da ferida) para estratificação do risco de infecção da ferida operatória pelo IRIC (Índice de Risco de Infecção Cirúrgica), tempo de permanência de procedimentos invasivos em pacientes críticos, com ajustes das respectivas infecções pela densidade de utilização do procedimento, expressando-se as taxas de pneumonias relacionadas à ventilação mecânica por 1.000 dias de uso de ventilação mecânica, infecção da corrente sangüínea relacionada a cateter venoso central por 1.000 cateteres venosos centrais/dia e ITU relacionada a sonda vesical de demora por 1.000 SVD/dia. Obviamente, a coleta de tamanha diversidade de dados com o objetivo de melhorar os denominadores das nossas taxas de infecção e, conseqüentemente, nos permitir extrapolar algumas inferências quanto à qualidade do trabalho assistencial, esbarra na crônica e crescente escassez de recursos humanos nos serviços/comissões de controle de infecção hospitalar.

Como se não bastasse, cabe ao epidemiologista hospitalar moderno extrapolar os paradigmas com os quais vimos trabalhando ao longo dos últimos anos. Sabemos que face à complexidade crescente de nossos pacientes, incorporação de novas tecnologias de forma assustadora, como por exemplo as cirurgias videolaparoscópicas e cirurgias cardíacas minimamente invasivas, muitos dos nossos “benchmarks” em infecção hospitalar têm se tornado anacrônicos. A literatura é farta em nos alertar para a necessidade de mensurar outros indicadores, especialmente indicadores de processos, medindo-se os desvios observados no processo do “fazer”, do prestar a assistência, que se, de forma incorreta, pode redundar em eventos muitíssimo mais ominosos e de impacto imediato para a segurança do paciente, como por exemplo, uma má fixação de tubo orotraqueal e conseqüente extubação acidental em paciente altamente dependente de suporte ventilatório. Some-se a isto o saudável engajamento das instituições de saúde no processo de acreditação hospitalar pelo Sistema Brasileiro de Acreditação (SBA), através da Organização Nacional de Acreditação (ONA), que tem colocado sobre os ombros do epidemiologista hospitalar o desafio de ir além das fronteiras do que até então chamávamos CCIH/SCIH.

Neste cenário, o trabalho do epidemiologista hospitalar, seja médico, enfermeiro, farmacêutico, há que ser totalmente automatizado, lastreado por um sistema de informação hospitalar (SIH) que transforme a massa enorme de dados com que trabalhamos, a grande maioria já disponível no SIH, em informações úteis, quantificáveis, mensuráveis e tangíveis. O epidemiologista hospitalar não pode ficar à mercê da enorme revolução que temos assistido na tecnologia da informação (TI) nas últimas décadas, com ganhos significativos para os setores produtivos e, só mais recentemente, no segmento de saúde. Com tristeza, ainda vemos profissionais extremamente capacitados, produtivos, “correndo”, “buscando”, “garimpando” dados, aqui e acolá, por todo o hospital, para se construir a informação necessária na definição de uma infecção hospitalar ou outro evento adverso assistencial. Ora, esta informação já se encontra, ou deveria se encontrar, no SIH, como, por exemplo, cadastro de pacientes com unidades de internação, consumo de antibióticos, isolados microbiológicos, laudos de RX, cadastro de cirurgias, implantação de procedimentos invasivos, etc. Caberia então ao epidemiologista construir a informação necessária a partir dos dados disponíveis, elaborar os numeradores das inúmeras taxas com as quais trabalhamos, analisar os dados, conjeturar hipóteses e intervir nos processos da assistência. Infelizmente, muito comumente o trabalho pára após a geração e divulgação das taxas, tamanha é a carga de trabalho repetitivo, insano, pouco produtivo para a instituição, sem que se extraia destes profissionais o que de melhor poderiam produzir. A informática, com as poderosas ferramentas de armazenamento e inter-relacionamento de dados, compartilhamento da informação, apresentação gráfica, análises estatísticas e outros recursos, pode e deve humanizar o trabalho do epidemiologista hospitalar, tornando-o mais interessante, agradável e viabilizando o projeto de um serviço de epidemiologia hospitalar de vanguarda.

Dentro deste contexto, a informática surge e adquire papel fundamental no gerenciamento da qualidade de assistência. No nosso serviço, além do trabalho usual na epidemiologia das infecções hospitalares, temos feito vigilância de outros eventos adversos, não-infecciosos, relacionados à assistência, tais como perdas de cateteres venosos (central e PIA), falha de extubação, extubação acidental, escaras, lesões por cateter venoso central, com rastreamento da causa e conseqüência do referido evento.

Sem a informatização, nossa equipe, que é constituída por dois médicos, uma enfermeira, uma farmacêutica, dois acadêmicos de enfermagem e uma secretária, não teria condição de fazer um trabalho tão extenso e que prima pela alta qualidade, em um hospital de nível terciário que conta com cerca de 50 leitos de terapia intensiva de adultos e pediátricos (inclusive neonatos), realiza em torno de 1.000 cirurgias/mês, transplantes e recebe pacientes encaminhados de hospitais da capital, interior de Minas Gerais e de outros Estados.

No Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte, primeiro hospital privado do Brasil a ser acreditado em nível de excelência (nível 3), todos os indicadores de qualidade de assistência são gerenciados pelo Software Janus, ferramenta utilizada pelo Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar (SECIH) para otimização do trabalho de vigilância e prevenção de eventos adversos, sejam eles infecciosos ou não. Para facilitar o trabalho da equipe do SECIH, o sistema Janus interage com o SIH da instituição, importando os dados de internação, alta, consumo de antibióticos, resultados de exames microbiológicos e cirurgias; isto reduz em muito o trabalho de toda a equipe, liberando tempo para a implementação de atividades de controle, realizar visitas em todos os departamentos da instituição voltados para a assistência ou seu suporte, e construção de novos indicadores. Após a alimentação dos dados, periodicamente são gerados relatórios e gráficos em Excel (arquitetura aberta) e em formato HTML (alimentar intranet), os quais são avaliados pela equipe do SECIH, encaminhados e discutidos com os diversos setores e equipes assistenciais.

O sistema viabiliza a vigilância epidemiológica pós-alta do componente cirúrgico através de emissão de relatórios automáticos para os cirurgiões e pacientes, via e-mail, perquirindo-os quanto à ocorrência de infecções pós-alta, trombose venosa, embolia pulmonar e outros eventos adversos. Todos sabemos já há muito tempo sobre a enorme limitação da análise de taxas de infecção cirúrgica com a realização de vigilância intra-hospitalar apenas, assim como do hercúleo trabalho despendido no rastreamento destas infecções pós-alta com a vigilância convencional através de ambulatório de egressos, telefonemas para cirurgiões e/ou pacientes, carta-resposta, entre outras. O contato via e-mail com o paciente permite-nos avaliar também a satisfação do cliente quanto aos serviços prestados, agregando valor ao importante trabalho desenvolvido pelos SACs no tocante à fidelização do cliente, algo de importância crescente em um mercado extremamente competitivo.

O software Janus funciona em rede nos cinco terminais do SECIH, permitindo consulta e alimentação simultânea de uma mesma base de dados (como, por exemplo, dados de infecção hospitalar). Mais recentemente foi disponibilizada a consulta de seu banco de dados por todos os terminais assistenciais da instituição, facilitando sobremaneira o trabalho do corpo clínico através da visualização em tempo real de todo o histórico do paciente nesta e em internações prévias, no tocante ao consumo de antibióticos com indicação do uso, isolados microbiológicos com sítios de invasão, cirurgias realizadas, passagens pelas áreas críticas e procedimentos invasivos realizados, entre inúmeros outros. De posse destes dados, certamente os profissionais terão maior embasamento para prestar assistência de maior qualidade. Permite também aos gestores das unidades fechadas acompanharem de forma concorrente os seus indicadores através do sistema, intervindo mais precocemente na prevenção dos eventos adversos.

Nosso banco de dados, no formato atual, data de 2001. O grande número e variedade de informações arquivados permitem que sejam feitos levantamentos sobre antibióticos utilizados, perfil de sensibilidade das bactérias isoladas em infecções hospitalares e comunitárias, taxas de infecção hospitalar (geral, associada a procedimentos invasivos, específica por setores do hospital), entre outros, de forma rápida e precisa. Além destes dados serem utilizados no trabalho cotidiano da equipe do SECIH, são também enviados para congressos das áreas de Infectologia e de Controle de Infecção Hospitalar pela equipe. Com a disponibilização dos dados para o corpo clínico, espera-se uma maior integração entre os serviços, inclusive no que diz respeito a aumento da produção científica, já estando em andamento uma tese de mestrado e monografias de Curso de Especialização em Infecção Hospitalar.

A informatização do SECIH do Hospital Mater Dei com o Janus contribui sobremaneira no nosso trabalho, e teve papel fundamental para a acreditação da instituição, tendo sido elogiado como serviço inovador, criativo e pioneiro no relatório final da ONA.