Jornada de Infecção Hospitalar no ABC Paulista:
Síntese dos Principais Temas Debatidos


Dra. Rosana Richtmann
Médica Infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.
Consultora da CCIH do Complexo Hospitalar da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul.
Presidente da CCIH do Hospital e Maternidade Santa Joana e Pro Matre Paulista.
Doutora em Medicina pela Universidade de Freiburg – Alemanha.


Dra. Rosana Richtmann


No último dia 10 de setembro deste ano foi realizada, na cidade de São Caetano do Sul, a 2ª Jornada de Infecção Hospitalar do Complexo Hospitalar da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul. Esse evento reuniu cerca de 270 profissionais da saúde da região do ABC paulista interessados ou envolvidos neste importante tema. A Comissão Organizadora do evento, composta por Dra. Rosana Richtmann, Dra. Ana Paula Volpato, Enfa. Giovana Lourenço Munhoz e Dra. Viviane Cristina Torres Perez, ficou extremamente satisfeita e surpresa com o sucesso de participantes no evento. Julgamos que o motivo do grande interesse dos profissionais locais se deve ao fato de que acontecem poucos eventos específicos sobre o tema na região do ABC paulista.
Foram discutidos temas importantes, como:

COMO EU FAÇO: PREVENÇÃO DE INFECÇÃO RELACIONADA A CATETER?

Esta mesa discutiu o manejo das infecções relacionadas aos cateteres vasculares centrais (CVC), através de mesa-redonda. Desta atividade científica podemos tirar algumas conclusões, depois de ouvirmos as opiniões de profissionais de diferentes instituições, como a Enfa. Gláucia Arriero, da Pro Matre Paulista, a Enfa. Giovana Lourenço, do Complexo Hospitalar da Prefeitura Municipal de SCS e a Dra. Heloisa Ayub, do Hospital Brasil. Todos concordam que a vigilância ativa das infecções relacionadas a cateter (IRC) é fundamental para um “diagnóstico de situação” e a partir deste ponto instituir medidas de prevenção e, através da análise epidemiológica, medir o impacto das medidas preventivas instituídas. O método de eleição das participantes da mesa foi a medida da densidade de incidência das IRC, ou seja, número de IRC por 1000 cateter-dia. Discutiu-se também a importância da implantação de padronização escrita sobre as normas de inserção e manutenção dos CVC. Para inserção do CVC, foi consenso entre as participantes as vantagens do uso de clorexidina alcoólica para a inserção do CVC, assim como paramentação com barreira máxima, usando campo largo cobrindo todo o paciente, luvas e avental estéril, além de máscara e gorro. Se possível, a instituição dos chamados “grupos de cateter” é de extrema importância na prevenção de complicações infecciosas e mecânicas relacionadas aos CVC. Em relação ao tipo de curativo usado nos hospitais, vimos que as participantes têm experiência com curativo com gaze, sendo a troca do mesmo feita a cada 48h, assim como outros hospitais têm experiência com os curativos transparentes, que apresentam a vantagem de menor manipulação, visto que a troca do mesmo pode ser feita a cada sete dias, desde que não esteja sujo, solto ou úmido. O importante é enfatizar que o tipo de curativo não está relacionado a um maior risco de IRC. Todas as participantes concordaram que não existe intervalo preestabelecido para a troca dos CVC, devendo o mesmo ser removido sempre que não houver mais a necessidade de seu uso, ou nas situações em que existe a suspeita clínica de IRC (febre sem foco determinado, sinais flogísticos no local de inserção do CVC, purulência local, etc.).


Dra. Beatriz Regina Gaurini(à esq.), Dra. Viviane Cristina Torres Perez, Dra. Rosana Richtmann,
Dra. Ana Paula Volpato e Enfa. Giovana Lourenço Munhoz.


Uma conclusão importante desta mesa de discussão foi que é fundamental o treinamento continuado sobre as medidas de prevenção das IRC, visto que sabemos muito bem o que devemos fazer e o que realmente funciona, porém temos grande dificuldade de colocar estes conhecimentos na nossa prática diária. Este sim é o grande desafio! Estamos diante de um tipo de infecção que está relacionada a elevada letalidade, e que as CCIH dos hospitais têm obrigação de instituir continuamente medidas de conscientização e de prevenção.

ATUALIDADE EM CURATIVOS

Esta mesa-redonda, composta pela Enfa. Kelly Camarozano Machado, do Hospital de Ensino Fundamental do ABC, apresentou sua experiência na formação de equipe multidisciplinar de curativos, composta por médicos e enfermeiros, com elaboração de protocolo de curativo em toda rede básica de saúde de São Bernardo do Campo e Hospital Anchieta, estabelecendo condutas uniformes entre hospital e unidade básica visando à referência e contra-referência, encaminhando de volta para a unidade de origem onde foi diagnosticada a lesão, para acompanhamento nessa unidade. Em seguida, a Enfa. Adriana Zonta, do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, discutiu os tipos de curativos disponíveis no mercado e sua utilidade, lembrando que ter conhecimento de produtos para indicação correta faz-se necessário para uma resposta mais eficaz na evolução da ferida.


Enfa. Kelly Camarozano Machado(à esq.), Enfa. Cristiane Carosa e Enfa. Adriana Zonta.


A mesa, coordenada pela Enfa. Cristiane Carosa, do Complexo Hospitalar SCS, concluiu que não há obrigatoriedade de enfermeira estomatoterapeuta para se ter equipe de curativos, e sim de alguém que estude e goste do assunto, para iniciar uma equipe de curativos. Outra lição importante é que apesar de recursos limitados, podemos obter bons resultados, através de conhecimento e indicação e uso adequado dos produtos disponíveis.


A Jornada atraiu a participação de inúmeros profissionais de saúde da região do ABC paulista.


ACIDENTE OCUPACIONAL: COMO PREVENIR?

A terceira mesa foi apresentada pela Enfa. Alessandra Destra, do Hospital Santa Catarina de São Paulo, sobre acidente com material biológico, uma atualização sobre os riscos dos profissionais da área da saúde (PAS) em se acidentar com material biológico, especialmente os acidentes perfurocortantes, assim como foram apresentadas as medidas de assistência que devem ser oferecidas prontamente aos PAS diante de um acidente, e as novas tecnologias e dispositivos que diminuem muito esse risco, como as agulhas retráteis, etc. Nesta atividade foi discutida a importância da precocidade da assistência ao PAS acidentado com material biológico contaminado pelo HIV, sendo que o mesmo deverá iniciar a quimioprofilaxia adequada, quando indicada, em até 2h após a exposição. Portanto, é importante que os hospitais saibam que existe um serviço de referência em acidente biológico, que funciona 24h, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e que realiza o seguimento destes PAS. Em relação aos vírus da hepatite B, fica cada vez mais clara a importância da vacinação de todos os PAS, com três doses da vacina, com intervalo 0, 1 e 6 meses, apresentando eficácia de 95-98%. É recomendável que os PAS vacinados realizem sorologia comprobatória de imunidade vacinal entre 2 e 6 meses após a terceira dose da vacina. Se anti-HBs ≥ 10 UI/ml, significa imunidade provavelmente por toda a vida. Se não houver a soroconversão, o PAS deverá receber mais três doses da vacina e fazer novo controle de viragem sorológica.

Outro vírus muito preocupante para os PAS é o vírus da hepatite C, cujo risco de aquisição por acidente biológico com fonte positiva gira em torno de 1,8% (exposição percutânea). Lamentavelmente, ainda não dispomos de nenhuma medida eficaz de prevenção pós-exposição, sendo fundamental a prevenção pré-exposição, através da viabilização de dispositivos para o descarte adequado de artigos perfurocortantes, uso de equipamento de proteção individual (EPI) sempre que prevista exposição de líquidos corpóreos de qualquer paciente, dentre as várias medidas implantáveis e recomendadas nos nossos hospitais.

Esta atividade foi coordenada pelo Dr. Fernando Galvanessi, colega muito atuante na região do ABC paulista e que deu sua opinião sobre o tema e a necessidade de conscientização dos PAS sobre o importante tema.

PNEUMONIA HOSPITALAR: DIAGNÓSTICO, TRATAMENTO E MEDIDAS DE PREVENÇÃO

Outro tema debatido foi a pneumonia hospitalar, que representa a segunda causa de infecção hospitalar nos EUA, estando associada a alta mortalidade, o que gera aumento de permanência hospitalar e conseqüentemente aumento de custos hospitalares. Dra. Maria Odila Gomes, responsável pela unidade de terapia intensiva do Complexo Hospitalar de SCS, apresentou os fatores de risco, destacando a importância da broncoaspiração na patogênese da pneumonia hospitalar, os aspectos clínicos e de diagnóstico e o tratamento baseado na provável flora da pneumonia, dividindo em precoce, que é a pneumonia desenvolvida em 96 horas da admissão do paciente na UTI (unidade de terapia intensiva) ou ventilação mecânica (VM), onde os agentes comumente relacionados são E. coli, Proteus spp, Klebsiella spp, S. pneumoniae, S. aureus oxacilina-sensível, e tardia, quando a pneumonia ocorre após 96 horas da admissão do paciente na UTI ou VM, sendo os agentes associados a P. aeruginosa, Acinetobacter spp, S. aureus oxacilina-resistente, agentes multirresistentes, e neste caso o tratamento vai depender da flora de cada hospital. Dra. Ana Paula Volpato, médica do SCIH do Complexo Hospitalar de SCS, apresentou os aspectos de prevenção de pneumonia hospitalar, tendo como base o guia de prevenção de pneumonia hospitalar do CDC (MMWR 2004;53(RR-3)1-35.), destacando as medidas de elevado grau de evidência e qualidade IA:


Dra. Regina Maura Zetoni Grespam


- Educação e envolvimento da equipe no controle de infecção hospitalar (IA).
- Lavar as mãos antes e após manipulação do paciente (IA).
- Troca de luvas entre cada paciente (IA).
- Após limpeza, o equipamento deverá ser esterilizado ou desinfetado (IA).
- Não trocar rotineiramente com base na duração do uso o circuito ventilatório, devendo ser feito quando visivelmente sujo ou com mau funcionamento (IA).
- Para retirar o condensado do circuito, descontaminar as mãos com álcool gel ou com água e sabonete líquido, antes de realizar o procedimento (IA).
- Realizar vacina pneumocócica para pacientes com co-morbidades (IA).

A mesa, coordenada pela Dra. Beatriz Regina Gaurini, Diretora do Complexo Hospitalar de SCS, foi unânime na importância das medidas de prevenção e conhecimento da flora hospitalar para indicar o melhor na terapêutica das pneumonias hospitalares.

SURTOS: COMO INVESTIGAR?

Outro assunto discutido no evento foi Surtos Hospitalares, sendo abordado de forma abrangente por Dra. Nédia Hallage, da Faculdade de Medicina do ABC, ressaltando a importância de detecção precoce de surtos, muitas vezes com o aparecimento de apenas um agente não observado habitualmente na flora de um determinado hospital ou unidade, desencadeando desta forma várias medidas urgentes com o objetivo de evitar o aparecimento de mais casos, visando ao controle da situação. Determinar o caso-índice, e determinar os fatores de risco possíveis para a ocorrência de surtos, também são fatores extremamente importantes. Os surtos devem ser sempre pesquisados levando-se em consideração o agente causador, se isso for possível, levantamento da literatura sobre experiências de outras instituições com surtos de agente semelhante. Também levantando a importância de se possuir dados epidemiológicos históricos para viabilizar o cálculo de limite superior em determinada unidade, com o objetivo de servir como alerta na detecção de surtos.

Concluímos que o resultado final desta jornada no ABC foi particularmente positivo, devido à qualidade das apresentações, ao grande interesse do público pelos temas abordados, o que nos anima a manter esta atividade anualmente. O fundamental apoio da Secretaria Municipal de Saúde de SCS, na pessoa da Dra. Regina Maura Zetoni Grespam, diretora da saúde de SCS, sem o qual o evento não teria acontecido.


“Sites” importantes a serem pesquisados, citados durante a Jornada e que poderão auxiliar uma leitura mais aprofundada sobre os temas discutidos no evento:
www.cdc.gov • www.apecih.org.br • www.funasa.gov.br
www.anvisa.gov.br • www.riscobiologico.org