Evento Promove Atualização em Infecções Fúngicas


Por Luciana Rodriguez


Prof. Dr. Arnaldo Colombo


O IV Fórum de Infecções Fúngicas na Prática Clínica, realizado nos dias 2 e 3 de setembro, no Rio de Janeiro, reuniu mais uma vez renomados especialistas, que colocaram em debate os mais relevantes temas relacionados à área fúngica. Coordenado pelo Prof. Dr. Arnaldo Colombo, Professor Titular de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Unifesp/EPM e pelo Prof. Dr. Márcio Nucci, Professor Adjunto do Departamento de Clínica Médica do Serviço de hematologia e Chefe do Laboratório de Micologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ, o evento contou com a participação de especialistas brasileiros e estrangeiros, todos profissionais de grande experiência na área, habilitados a oferecer aos participantes do evento uma visão completa sobre o melhor conhecimento disponível nos tópicos do programa, de modo que discutiram sobre importantes assuntos, tais como, Candidemia, Criptococose, Micoses endêmicas, Novas tendências em infecções fúngicas, Abordagem de infecções fúngicas em pacientes com câncer e TMO, Infecções por fungos filamentosos no hospital, Infecções fúngicas em pediatria, entre outros temas.


Prof. Dr. Márcio Nucci


Segundos os coordenadores do IV Infocus, foi elaborada uma programação intensa e abrangente, com tópicos que abordaram diversos aspectos da epidemiologia, diagnóstico, prevenção e tratamento de infecções fúngicas em pacientes internados em unidades de terapia intensiva, portadores de diferentes doenças degenerativas e/ou neoplásicas, submetidos a transplantes de órgãos, recém-natos prematuros, assim como pacientes portadores de AIDS. Ressaltaram também a abordagem voltada às micoses endêmicas, particularmente a Paracoccidioidomicose.

“O cenário de infecções fúngicas tem mudado muito nos últimos anos: a população de pacientes em risco tem aumentado, a lista de patógenos potenciais tem se expandido, e o elenco de opções terapêuticas vem aumentando, com o lançamento recente de novas drogas antifúngicas, e o desenvolvimento de outras que em breve estarão disponíveis. Com isso, o tema é de extrema relevância a profissionais de diversas áreas, tais como, medicina interna, infectologia, hematologia, oncologia, terapia intensiva, pediatria, neonatologia e microbiologia. O objetivo do INFOCUS foi justamente discutir estes temas com uma abordagem multidisciplinar”, contam os coordenadores. Confira a seguir o resumo de algumas das apresentações deste IV Infocus.


Manejo de Candidemia em Pacientes Criticamente Doentes:
Como Escolher o Agente Antifúngico mais Apropriado?


Dr. Clóvis Arns da Cunha1 - Dra. Viviane M. Carvalho Hessel Dias2
1Chefe do Serviço de Infectologia do HC-UFPR e do Hospital Nossa Senhora das Graças,Curitiba-PR.
Professor de Infectologia da UFPR. Infectologista do Serviço de Transplante de Medula Óssea do HC-UFPR. Especialista (Clinical Fellow) em Infectologia pela Universidade de Minnesota, EUA.
2Especialista em Clínica Médica pelo HC-UFPR. Residente em Infectologia do Hospital Nossa Senhora das Graças, Curitiba-PR. Visiting Fellow de Infectologia na Universidadede Minnesota, EUA.



Equipe de Infectologia do Hospital Nossa Senhora das Graças e do
Centro Médico São Francisco, Curitiba - PR.
Dra. Viviane Maria de Carvalho Hessel Dias (à esq.), Dr. Rodrigo Barth Reis,
Dr. Clóvis Arns da Cunha, Dra. Mônica Gomes da Silva e Dr. Marcelo Abreu Ducroquet


O termo candidíase invasiva se refere à doença causada por leveduras do gênero Candida na corrente sangüínea, candidemia, a qual representa pelo menos 90% das apresentações clínicas de candidíase invasiva, além das infecções causadas por este fungo em sítios habitualmente estéreis, tais como: peritonite, pneumonia ou pleurite, candidíase hepatosplênica, osteomielite, endocardite infecciosa, entre outras.

Esta revisão será apenas sobre a forma mais comum de candidíase invasiva: a candidemia. Fungos do gênero Candida representam o 6o patógeno mais comum nas infecções da corrente sangüínea no Brasil e o 4o nos EUA.

Na última década houve uma mudança no perfil epidemiológico dos pacientes que se apresentam com candidemia. Até o início da década de 90, pacientes submetidos a transplante de medula óssea e quimioterapia, particularmente por doenças hematooncológicas, se constituíam nos dois principais grupos de pacientes mais suscetíveis. Com a evidência na literatura médica de que o uso de fluconazol profilático nestes pacientes diminui significativamente a incidência e mortalidade à candidemia, e a conseqüente adoção desta prática na maioria dos centros médicos especializados no tratamento de tais doenças, tal infecção da corrente sangüínea passou a ser observada com maior freqüência nas unidades de terapia intensiva (UTI), particularmente em pacientes submetidos à cirurgia do aparelho digestivo, cirurgias colônicas em especial, e que necessitam de nutrição parenteral total. O uso de antibacterianos de amplo espectro e a presença de cateter venoso central, dois fatores de risco que já eram observados nos pacientes hematooncológicos, permaneceram nos pacientes de UTI.

A candidemia pode ter duas apresentações clínicas: a) quadro clínico agudo de sepse severa, indistinguível de bacteriemia e b) quadro clínico mais indolente, cuja principal manifestação clínica é a febre persistente, apesar de esquemas antibacterianos de amplo espectro.

Além de pensar em candidemia diante das duas apresentações clínicas anteriormente mencionadas, o clínico, infectologista ou intensivista deve conhecer os cinco fatores de risco mais freqüentemente observados em candidemia (entre parênteses, a freqüência com que cada um deles ocorre):

a) uso corrente ou recente de antibacterianos de amplo espectro (85%);
b) cateter venoso central (75%);
c) cirurgia recente, particularmente do intestino grosso (50%);
d) nutrição parenteral total (42%);
e) diabetes mellitus (20%).

A mortalidade de um paciente que apresenta candidemia depende de vários fatores de risco, destacando-se: extremos de vida, escore de APACHE mais elevado, apresentação clínica com choque séptico, neutropenia, malignidade pobremente controlada, entre outros. De modo geral, a mortalidade de um paciente com candidemia é entre 30 a 60%, sendo a metade atribuída diretamente à candidemia e a outra metade tendo como principal causa do óbito a doença de base.

São três os antifúngicos considerados de primeira linha para tratamento de candidemia: anfotericina B, fluconazol e caspofungina. Outros três antifúngicos são considerados de tratamento alternativo: anfotericina B formulações lipídicas, itraconazol e voriconazol. Este último teve esta indicação recentemente aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. As principais diferenças entre estes compostos são apresentadas na tabela abaixo.



Por muitos anos, a anfotericina B tem sido o antifúngico de referência para se comparar a novos antifúngicos que surgem no mercado farmacêutico. As duas principais vantagens da anfotericina B são: seu amplo espectro para as diversas espécies de Candida e seu baixo custo. As duas principais desvantagens são: significativos efeitos colaterais relacionados à infusão, tais como: febre, calafrios, flebite, náuseas e vômitos e a nefrotoxicidade, a qual leva à hipercaliúria, e esta à hipocalemia. Tal nefrotoxicidade pode levar a duas conseqüências de alto custo: diálise e interrupção da anfotericina B por alguns dias. Quando isto acontece, a vantagem do seu baixo custo passa a ter efeito oposto, ou seja, passa a ser uma medicação de alto custo pelos seus eventos adversos.

O principal estudo clínico que levou à aprovação do fluconazol para infecções disseminadas ou invasivas por Candida, destacando-se a candidemia, foi publicado em 1994. Rex e colaboradores demonstraram que fluconazol, na dose de 400 mg/dia, era tão efetivo quanto anfotericina B, na dose de 0,5 mg/kg por dia, com menor toxicidade. Pacientes neutropênicos foram excluídos neste ensaio clínico.

Mais recentemente, em 2002, estudo clínico com desenho do tipo não-inferioridade, como a maioria dos estudos clínicos que estudam novas drogas na Medicina, demonstrou que caspofungina na dose de 70 mg/dia no primeiro dia, seguida de 50 mg/dia nos dias subseqüentes, não foi inferior à anfotericina B, numa dose de 0,6-1,0 mg/kg por dia. Este estudo envolveu 277 pacientes, sendo 10% neutropênicos. No grupo caspofungina, 71% apresentaram sucesso, enquanto no grupo da anfotericina B, 62%. A caspofungina pertence a uma nova classe de antifúngicos, denominada equinocandinas, e por atuar na parede celular do fungo, estrutura inexistente na célula humana, apresentou-se muito segura, com mínima toxicidade. Apesar deste estudo ter sido desenhado com o objetivo primário de demonstrar não-inferioridade, houve uma tendência de superioridade no grupo da caspofungina.

As formulações lipídicas da anfotericina B disponíveis no mercado brasileiro são: anfotericina B lipossomal, anfotericina B em complexo lipídico e anfotericina B em dispersão coloidal. Esta última formulação apresenta eventos adversos relacionados à infusão superiores à anfotericina B desoxicolato ou regular, chegando a cerca de 80%. As duas primeiras são as que apresentam mais estudos na literatura e as doses preconizadas são para anfotericina B lipossomal de 3-5 mg/kg em dose única diária e para anfotericina B em complexo lipídico 5 mg/kg ao dia. O uso destas formulações lipídicas é para pacientes refratários ou intolerantes. O primeiro grupo se refere a pacientes que não responderam à dose total de 500 mg de anfotericina B desoxicolato e o segundo aos pacientes que apresentam elevação da creatinina, particularmente se o clearance de creatinina estiver abaixo de 50 ml/min.

O itraconazol, embora disponível na apresentação intravenosa em alguns países da América Latina, não está disponível no Brasil, motivo pelo qual não é utilizado em pacientes com sepse hospitalar por Candida. Apresenta também interação medicamentosa com vários medicamentos utilizados em pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva.

Assim que o Laboratório de Microbiologia, ou mais especificamente de Micologia, avisa o médico responsável pelo paciente que leveduras foram detectadas na hemocultura, o diagnóstico provável de candidemia deve ser feito. A incidência de outras leveduras como causa de infecção da corrente sangüínea em pacientes de UTI é muito baixa. Assim que Candida é confirmada, a primeira pergunta que se deve fazer é: a espécie de Candida isolada é C. albicans ou não-albicans? A maioria dos Laboratórios de Microbiologia está capacitada para fazer a prova do tubo germinativo. Se positivo, é muito provável que seja C. albicans e, conseqüentemente, a chance de ser resistente ao fluconazol é, na prática, nula. Já se a Candida isolada é não-albicans, é importante que esta cepa seja encaminhada para um laboratório capacitado a identificar a espécie, pois duas espécies não-albicans têm particular importância prática por apresentarem níveis variáveis de resistência ao fluconazol. Espécies de C. krusei são quase sempre resistentes ao fluconazol, enquanto espécies de C. glabrata podem ser resistentes ou apresentar resistência intermediária. Neste último caso, são denominadas comp “sensibilidade dose-dependente”, isto é, se a dose de fluconazol for elevada de 400 mg/dia para 800 mg/dia, possivelmente será efetiva. Portanto, se C. glabrata for isolada, é recomendável que a cepa seja enviada para um Laboratório de Micologia de referência para que os testes de sensibilidade sejam realizados.

Já em relação ao voriconazol, recentemente aprovado para uso em candidemia, embora haja relatos de sensibilidade diminuída in vitro para algumas cepas de C. krusei e C. glabrata, o impacto clínico desta observação, até o momento, não é importante. Portanto, o voriconazol tem apresentado grande sucesso clínico para o tratamento de candidemia. Este novo azólico apresenta significativas interações medicamentosas por atuar no sistema enzimático hepático citocromo P450.

Várias publicações nacionais e internacionais revelam que a incidência de espécies não-albicans vem crescendo, representando em torno de 50% nos hospitais de maior porte. No Brasil, destacam-se as espécies de C. tropicalis e C. parapsilosis. Já nos EUA, Candida glabrata é a espécie não-albicans mais freqüentemente isolada. Importante observar que as espécies de Candida resistentes ao fluconazol, isto é, C. krusei e C. glabrata, parecem ser mais prevalentes nos hospitais brasileiros privados do que nos públicos.

Portanto, a escolha do antifúngico vai depender da epidemiologia da instituição e da gravidade do caso. Se a instituição apresenta incidência significativa de espécies fluconazol-resistentes, ou se o paciente fez uso recente de fluconazol e o estado clínico do paciente é de sepse severa, a escolha errada do fluconazol, até que a identificação da espécie esteja disponível, poderá ser fatal. Neste caso, anfotericina B e caspofungina são as duas opções mais adequadas. A função renal ou o risco de sua deterioração é que vai determinar qual a melhor escolha. Após alguns dias, quando a identificação da espécie da Candida isolada estiver disponível, se for sensível ao fluconazol, poder-se-á proceder um “deescalonamento” da anfotericina B ou caspofungina para fluconaozol. A caspofungina não requer ajuste de dose se a creatinina estiver alterada, já que apresenta excreção hepática, devendo ter a dose reduzida para 35 mg/dia nos casos de disfunção hepática moderada e devendo-se avaliar risco-benefício nos casos de disfunção hepática severa, situação na qual a princípio não deve ser utilizada. Mais da metade dos pacientes com candidemia, chegando até a 70% dos casos, apresentam hemocultura negativa após 48-72 horas de tratamento adequado, sendo pois indicado colher hemocultura de controle neste período. O tempo total de tratamento deve ser de 14 dias após a última hemocultura positiva e resolução dos sintomas e sinais. A maioria dos casos requer a retirada do cateter venoso central, sendo esta indicação menos precisa nos pacientes neutropênicos. Neste grupo, a fonte da candidemia muitas vezes é o intestino, particularmente nos pacientes com mucosite significativa. Se houver persistência da candidemia, considerar como causas mais prováveis do insucesso: cateter central não foi retirado, paciente apresenta imunossupressão muito significativa e resistência fúngica.

REFERÊNCIAS

1. Pappas PG et al. Guidelines for treatment of candidiasis. Clin Infect Dis 2004;38:161-189
2. Baran J Jr et al. Candidemia before and during the fluconazole era: prevalence, type of species and approach to treatment in a tertiary care community hospital. Scand J Infec Dis 2001;33:137-9.
3. Mora-Duarte J et al. Comparison of caspofungin and amphotericin B for invasive candidiasis. N Engl J Med 2002;347:2020-9.
4. Wingard JR. Lipid formulations of amphotericins: are you a lumper or a splitter? Clin Infect Dis 2002;35:891-5.
5. Walsh TJ et al. Amphotericin B lipid complex for invasive fungal infections: analysis of safety and efficacy in 556 cases. Clin Infect Dis 1998;26:1383-96.


Antifúngicos Azólicos


Prof. Dr. Flavio de Queiroz Telles
Professor Adjunto de Doenças Infecciosas e Parasitárias e Médico Consultor do
Laboratório de Micologia - Hospital de Clínicas, Universidade Federal do Paraná.



Os antifúngicos azólicos possuem como principal mecanismo de ação a inibição da síntese do ergosterol, um componente esteróide da membrana celular da célula fúngica, análogo ao colesterol da membrana celular dos mamíferos. Este efeito determina a deterioração da membrana celular e inibição do crescimento e multiplicação dos agentes de infecções fúngicas. Secundariamente, os azólicos inibem a transformação de micélio em levedura, diminuem a capacidade de aderência e exercem efeitos tóxicos em outros fosfolipídeos da célula fúngica.

A história dos derivados azólicos remonta a 1944, quando verificou-se a atividade in vitro de benzimidazol. Entretanto, somente em 1958 a indústria farmacêutica introduziu no mercado o clormidazol, um atífúngico tópico. Desde então, essa classe de antifúngicos vem sofrendo constantes aperfeiçoamentos, sendo atualmente disponibilizadas várias modalidades de formulações tópicas, de uso dermatológico e ginecológico, e formulações sistêmicas. O primeiro azólico sistêmico foi o miconazol intravenoso, já retirado do mercado e hoje apenas disponível em apresentação tópica. Nos anos 80 surgiram os imidazólicos, cujo único representante entre as drogas sistêmicas foi o cetoconazol. Apesar de apresentar maior índice de toxicidade hepática e endócrina, este produto ainda é disponível para uso sistêmico, em forma de comprimidos.

O final da década de 80 e o início dos anos 90 assistiram à chegada dos derivados triazólicos de primeira geração, fluconazol e itraconazol, sintetizados respectivamente pela Pfizer e Janssen. Estes compostos, como todos os azólicos, possuem como principal mecanismo de ação a inibição da síntese do ergosterol. Entretanto, fluconazol e itraconazol apresentam diferentes características de farmacodinâmica, farmacocinética e espectro antifúngico. Fluconazol é uma droga hidrossolúvel, de absorção não ácido-dependente, atuando principalmente em leveduras do gênero Candida, Cryptococcus neoformans e dermatófitos, atingindo níveis eficazes no SNC. No Brasil, é disponível em formulação oral e intravenosa. Nos últimos anos, há emergência de resistência de algumas espécies de Candida, especialmente C. krusei e C. glabrata. Itraconazol é uma substância lipossolúvel, com afinidade para órgãos contendo tecido adiposo e também para pele e anexos epidérmicos com tecido queratinizado. Apesar de um espectro antifúngico expandido, itraconazol de uso sistêmico é comercializado no Brasil apenas sob forma de cápsulas para uso oral. Sua absorção é ácido-dependente e, por possuir metabolismo hepático dependente do citocromo P-450, pode interagir com diversos medicamentos competidores desta linha metabólica. As principais indicações de itraconazol na área de infectologia incluem as micoses endêmicas, como paracoccidioidomicose, histoplasmose, cromoblastomicose e esporotricose e formas não-nervosas de criptococose. Um terceiro triazólico de primeira geração, saperconazol, chegou a ser ensaiado em humanos; entretanto, por tetarogenicidade detectada em modelos experimentais, este produto foi descontinuado na década de 90.

O século 21 assistiu ao desenvolvimento da segunda geração de triazólicos, derivados das moléculas de fluconazol e itraconazol. Do primeiro vieram voriconazol (Pfizer) e ravuconazol (Bristol-Myers Squibb/Eisai) e do segundo, posaconazol (Schering-Plough). Destes, apenas voriconazol encontra-se comercializado e disponível nas formulações oral e intravenosa. Voriconazol herdou características farmacodinâmicas e farmacocinéticas da molécula-mãe, como boa absorção gastrointestinal, penetração adequada em SNC, porém difere do fluconazol por ter um espectro antifúngico expandido, atuando contra fungos filamentosos como Fusarium e Aspergillus, além de ser ativo em várias espécies de leveduras, incluindo Candida albicans e não-albicans. Diferindo de fluconazol, voriconazol apresenta toxicidade visual, cutânea e hepática. Entretanto, os efeitos adversos relatados são na maioria leves, raramente sendo causa de interrupção do tratamento.

Novas drogas antifúngicas disponíveis, como voriconazol e caspofungina (uma equinocandina) podem substituir com segurança a anfotericina na maioria dos cenários de infecção fúngica invasiva. Em estudos comparativos randomizados, voriconazol mostrou-se superior em eficácia e segurança, quando comparado à anfotericina B, em aspergilose invasiva e não inferior em eficácia, porém menos tóxico que a anfotericina B na terapêutica de candidíase invasiva. Além destes estudos globais, voriconazol foi ensaiado em infecções por patógenos refratários à terapêutica convencional ou em doenças onde ainda não há terapêutica aprovada, como em infecções invasivas por Fusarium sp. e Scedosporium sp. Em 273 pacientes portadores de infecções por Aspergillus sp, Candida sp e Cryptococcus neoformans submetidos a tratamento de resgate com voriconazol por serem refratários ou intolerantes à terapêutica convencional, 47% apresentaram resposta favorável à mudança de antifúngico, 43,7% de resposta em aspergilose, 57,5% em candidíase (sistêmica e esofágica) e 38,9% em criptococose. Já em 28 indivíduos portadores de infecções por Fusarium sp e Scedosporium sp, as taxas de resposta foram de 45,5% e 30%, respectivamente. De 372 pacientes que participaram da análise de segurança, 16 (4,3%) apresentaram efeitos adversos relacionados ao voriconazol, determinando redução de dose ou interrupção (Perfect et al. Clin Infec Dis 2003:36). Em outro estudo de terapêutica de resgate de candidíase, a amostra analisada incluiu 106 pacientes (87 do estudo anterior), portadores de candidíase sistêmica (55) ou esofágica (51). Todos já haviam recebido anfotericina B, fluconazol ou itraconazol sem sucesso, por falha ou intolerância. Entre os isolados de Candida identificados a nível de espécie, havia alta taxa de resistência in vitro ao fluconazol (MIC > 32 mg/ml), incluindo espécies albicans e não-albicans. Neste estudo, a resposta a voriconazol foi considerada satisfatória em 43,6% dos casos (Ostrosky-Zeichner et al, Eur J Clin Microbiol Infect Dis 2003:22). Os dados disponíveis, ainda que obtidos de estudos não comparativos ou randomizados, sustentam que voriconazol apresenta-se como uma das únicas opções terapêuticas disponíveis para infecções fúngicas refratárias a tratamento convencional ou sem terapêutica definida. Devido a seu espectro de ação estendido, os triazólicos de segunda geração possuem também ação potencial em micoses endêmicas de caráter sistêmico. Em estudos clínicos não comparativos, posaconazol em solução oral mostrou-se eficaz em 6 de 7 pacientes com histoplasmose disseminada (Restrepo et al, ICAAC, 2003, M-976). Em estudo multicêntrico, comparativo, randomizado, voriconazol mostrou a mesma eficácia que itraconazol no tratamento de 53 pacientes com paracoccidioidomicose. Foi realizada análise de segurança do uso prolongado e contínuo de voriconazol (6 a 12 meses), com ênfase em efeitos adversos visuais. Dezessete (56%) pacientes do grupo tratado com voriconazol apresentaram algum tipo de reação visual. Todos foram de caráter transitório, desaparecendo em 24-48 horas após a primeira dose do tratamento (Queiroz-Telles et al, ECCMID, 2005). No futuro, novos ensaios são desejáveis para comparar-se os triazólicos de segunda geração com as equinocandinas na terapêutica de infecções invasivas por Aspergillus e Candida e também entre voriconazol e anfotericina B no tratamento de indução de formas graves de outras micoses sistêmicas, como paracoccidioidomicose, histoplasmose, coccidioidomicose e criptococose.


Critérios de Cura em Paracoccidioidomicose


Prof. Dr. Flavio de Queiroz Telles
Professor Adjunto de Doenças Infecciosas e Parasitárias e Médico Consultor
do Laboratório de Micologia - Hospital de Clínicas, Universidade Federal do Paraná.


A paracoccidioidomicose (blastomicose sul-americana) é a principal micose sistêmica autóctone da América Latina, sendo a maior casuística registrada no Brasil, Argentina, Colômbia e Venezuela. No Brasil, a maioria dos casos tem sido reportada nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. De caráter endêmico entre as populações de zona rural, a paracoccidioi-domicose (PCM) acomete principalmente indivíduos do sexo masculino entre 30 e 60 anos, sendo rara a incidência abaixo de 14 anos de idade. Sua importância em saúde coletiva está ligada aos custos sociais e econômicos derivados não apenas da doença em atividade, que ocorre em indivíduos na sua fase mais produtiva de vida, como também das freqüentes seqüelas secundárias a esta micose, motivo comum de incapacitação para o trabalho. De forma geral, a história natural desta doença sem intervenção terapêutica específica evolui para o óbito.



A terapêutica da PCM sempre envolve o uso prolongado e contínuo de antifúngicos sistêmicos, sendo necessário acompanhamento periódico dos pacien-tes em regime ambulatorial. Diferente de outros fungos patogênicos, Paracoccidioides brasiliensis é um organismo muito sensível quando exposto a drogas antifúngicas. Mesmo os sulfamídicos podem promover a sua inibição de crescimento. De acordo com seu perfil de sensibilidade, um amplo arsenal terapêutico é disponível para pacientes com PCM, incluindo sulfamídicos (sulfadiazina, sulfadoxina, sulfametoxipiridazina, cotrimazina e cotrimoxazol), anfotericina B desoxicolato ou em formulações lipídicas, compostos azólicos (cetoconazol, itraconazol, fluconazol e voriconazol) e até a terbinafina. As taxas de cura obtidas com estas drogas variam de 69 a 100%. Atualmente, os antifúngicos mais utilizados incluem o itraconazol ou o cotrimoxazol, para formas leves e moderadas da doença e a anfotericina B convencional para as formas graves. Embora existam poucos estudos comparativos em PCM, acredita-se que na maioria das vezes itraconazol por seis meses, em média, é a droga de escolha. A principal vantagem sobre o cotrimoxazol é a redução da duração do tratamento e a melhor eficácia, trazendo melhor adesão e vantagens farmacoeconômicas.

A decisão da interrupção do tratamento é baseada na averiguação de diversos parâmetros envolvendo os aspectos clínicos, micológicos, radio-lógicos e imunológicos da doença. Formas graves da doença geralmente requerem o internamento do paciente para receber anfotericina B ( 1 a 2 g) ou cotrimoxazol, por via intravenosa. A neuroPCM, deve ser tratada com cotrimoxazol por períodos prolongados (2 a 3 anos). Há relatos de casos mostrando que fluconazol ou voriconazol também podem ser eficazes.

Clínico
Regressão dos sinais e sintomas da doença, incluindo a cicatri-zação das lesões tegumentares, involução das linfadenopatias e estabilização do peso corporal. Freqüentemente observa-se persistência de sintomatologia residual, decorrente da cicatrização e fibrose das lesões de PCM. As seqüelas usualmente observadas ocorrem nos pulmões, sistema linfático, adrenais e SNC. Sinais e sintomas decorrentes de seqüelas devem ser diferenciados do quadro clínico decorrente de doença em atividade.

Micológico
Negativação do exame micológico direto em amostras de materiais diversos, clínicos, colhidas sucessiva-mente. Este critério é mais factível de ser verificado por exame de escarro. Já em outros materiais, como biópsias ou secreção de linfonodos, a pesquisa de fungos é desnecessária, pois as lesões regridem ou desaparecem com o tratamento.

Radiológico
As opacidades pulmonares, inicialmente de padrão nodular, micronodular ou cavitário, tendem a transformar-se em imagens lineares, sugestivas de cicatrização e fibrose das lesões pulmonares. Com o tratamento, deve-se pesquisar a estabilização do padrão das imagens radiológicas pulmonares em radiografias de tórax registradas a cada dois ou três meses. (figura 1)


Figura 1. Estabilização de imagens radiológicas pulmonares durante a terapia com itraconazol.



Imunológico
O método mais empregado é a detecção de anticorpos anti-P. brasiliensis, especialmente a reação de imunodifusão dupla em gel de ágar. O critério sorológico consiste em observar a negativação dos títulos de imunodifusão dupla ou estabi-lização do título em valores baixos, em amostras de soro coletadas periodicamente. Outros métodos podem ser empregados, como a contra-imunoeletroforese, ELISA ou mesmo a detecção de antígeno circulante. Este último, especialmente a detecção de GP 43 ou GP 70 tem mostrado maior especificidade e sensibilidade que a detecção de anticorpos. Entretanto, a antigenemia usualmente não é disponível para o atendimento da maioria dos pacientes com PCM. A positivação da intradermorreação intradérmica com a paracoccidioidina em pacientes com teste previamente negativo pode indicar a recuperação de imunidade celular em pacientes anérgicos.

O termo “cura completa” talvez nunca possa ser aplicado aos pacientes portadores de PCM, pela impossibilidade de er-radicação do Paracoccidioides brasiliensis. As diferentes modalidades terapêuticas diminuem a quantidade de fungos no organismo, permitindo a recuperação da imunidade celular e restabelecendo o equilíbrio entre parasita e hospedeiro, obtendo-se assim uma “cura aparente”. Por este motivo, após a interrupção do tratamento e uma vez obtidos os critérios de cura, os pacientes devem ser acompanhados ambulatorialmente, com exame clínico e sorológico. A positivação ou aumento do valor do título da reação de imunodifusão dupla pode preceder a recaída clínica; portanto, frente a esta situação justifica-se a reintrodução da terapêutica antifúngica. Exame clínico periódico, com controle do peso, verificação do surgimento de lesões orais ou de linfoadenopatias deve ser realizado por período de até um ano após a obtenção dos critérios de cura pelo paciente.

Além da terapêutica antifúngica, medidas gerais nunca devem ser esquecidas na terapêutica da PCM. Estas ações incluem o controle do alcoolismo e tabagismo, adequado aporte protéico-calórico e tratamento de co-infecções, como tuberculose, enteroparasitose, Aids e outras infecções bacterianas.

REFERÊNCIAS

1. Barbosa W, Pitaluga, Vasconcelos WMP. Ação da sulfametoxazol associada ao trimetoprim na terapêutica da blastomicose sul-americana. Revista de Patologia Tropical, 2:329-39, 1973
2. Del Negro G. Ketoconazole in paracoccidioidomycosis. A long therm therapy study with prolongued follow-up. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo 24: 27-39, 1982
3. Naranjo MS, Trujillo M. Munera MI, Restrepo P, Gomez, I. Treatment of paracoccidioidomycosis with itraconazole. Journal of Medical and Veterinary Mycology. 28: 67-76, 1990.
4. Mendes RP, Negroni R, Arechavala A. Trea-tment and control of cure. in: Franco M, Lacaz CS, Restrepo-Moreno, Del Negro G. Paracoccidiodiomycosis. Boca Raton: CRC Press, 373-92, 1994.
5. Pedrosa PN, Wanke B, Coura JR. Emprego da associação sulfametoxazol+trimetoprim no tratamento da paracoccidioidomicose (blastomicose sul-americana). Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 8: 159-65, 1974.
6. Queiroz-Telles F, Carvalho V, Nucci M. Comparative efficacy of cotrimoxazole and itraconazole in the treatment of paracoccidioidomycosis. Abstract J-142 - 38º ICAAC – San Diego, 1998.
7. Shikanai-Yasuda MA, Higahi Y, Del Negro G, Hoo Joo S. Randomized therapeutic trial with itraconazol, ketoconazole and sulfadiazine in paracoccidioidomycosis. Medical Mycology 40:411-7, 2002.

Simpósios-Satélites



Dr. Haggéas da Silveira Fernandes



No dia 2 de setembro, a Pfizer promoveu o Simpósio-Satélite Manejo de Infecções Fúngicas em pacientes graves: onde estamos e tendências futuras. Palestraram durante o simpósio os Drs. Márcio Nucci e Haggéas da Silveira Fernandes. O Simpósio da Pfizer fez uma revisão em infecção fúngica no doente crítico enfocando as duas patologias mais incidentes, Candidemia e Aspergilose. Foram abordados temas relacionados ao tratamento, condutas frente ao doente com fator de risco para infecção fúngica e ênfase nas drogas mais recentes, como caspofungina e voriconazol. Segundo o Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Diretor Clínico da Unidade de Choque do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e Chefe do Serviço de Terapia Intensiva Adulta do Hospital Neomater, São Bernardo do Campo, Dr. Haggéas da Silveira Fernandes, atualmente temos um arsenal terapêutico muito bem estabelecido, que permite tratar bem o doente, mas ainda enfrentamos dificuldades quanto ao diagnóstico “O grande desafio hoje, e talvez para os próximos anos, é o diagnóstico, ou seja, documentar se o paciente tem infecção por fungos. A incidência de mortalidade por infecções fúngicas é elevada e quanto mais precoce for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, os pacientes terão melhores resultados e taxa de sobrevida. Os dados de estudos de grande porte apresentados em jornais de impacto elevado, como o estudo da caspofungina para candidemia (New England), do voriconazol para aspergilose (New England) e um outro estudo que ainda não foi publicado de voriconazol para candidemia são muito importantes porque mostram o surgimento de novas opções terapêuticas que permitem ao médico tratar melhor os doentes. No entanto, a realidade brasileira ainda é de Terceiro Mundo; trata-se de drogas caras que não serão acessíveis a toda a população. Por isso é importante um trabalho de conscientização das autoridades da saúde, da importância de se ter este medicamento para todo o país. Então, no Brasil, a realidade seria esta, tentar estender as possibilidades terapêuticas para os hospitais públicos”, explica Dr. Haggéas.

No segundo dia do evento, a Merck Sharp & Dohme colocou em discussão o tema Infecções Fúngicas Invasivas – Consensos e Controvérsias. Os médicos Dr. Clóvis Arns da Cunha e Dr. Jorge Amarante foram os debatedores. Segue abaixo o resumo da aula do Dr. Clóvis Arns.




Tratamento Antifúgico Empírico em Pacientes
com Neutropenia Febril: O que há de Novo?


Dr. Clóvis Arns da Cunha1 - Dra. Viviane M. Carvalho Hessel Dias2
1Chefe do Serviço de Infectologia do HC-UFPR e do Hospital Nossa Senhora das Graças, Curitiba PR.
Professor de Infectologia da UFPR. Infectologista do Serviço de Transplante de Medula Óssea do HC-UFPR.
Especialista (Clinical Fellow) em Infectologia pela Universidade de Minnesota, EUA.
2Especialista em Clínica Médica pelo HC-UFPR. Residente em Infectologia do Hospital Nossa Senhora das Graças, Curitiba-PR. Visiting Fellow de Infectologia na Universidade de Minnesota, EUA.



Em cerca de 40 a 50% dos pacientes neutropênicos que apresentam febre é possível diagnosticar uma causa infecciosa. As infecções bacterianas representam de 30-35%, as fúngicas, 5% e as virais, menos de 5%. Os restantes 50 a 60% são classificados como febre de origem indeterminada e provavelmente são conseqüência de: a) causas não-infecciosas, tais como mucosite e causa medicamentosa; ou b) causas infecciosas não-diagnosticadas, em particular as infecções fúngicas. Fungos dos gêneros Candida e Aspergillus representam 80-90% das causas fúngicas documentadas.

A maioria dos trabalhos publicados em neutropenia febril recomenda que o paciente que está recebendo antibacteriano de amplo espectro há quatro a sete dias e persiste febril, deve receber tratamento antifúngico empírico.



A tabela a seguir apresenta as principais vantagens e desvantagens dos diversos antifúngicos sistêmicos avaliados para o tratamento empírico em neutropênicos febris.

A anfotericina B, por seu amplo espectro antifúngico, em especial para Candida e Aspergillus, tem sido o antifúngico mais utilizado em neutropenia febril, desde que, em 1982, Pizzo e colaboradores demonstraram o benefício de se utilizá-la em pacientes neutropênicos que persistiam febris após quatro ou mais dias de antibacterianos.

Em virtude de sua alta freqüência de nefrotoxicidade, as autoridades internacionais de aprovação de novos antifúngicos têm recomendado que a droga comparadora não seja mais a anfotericina B desoxicolato, mais sim uma de suas formulações lipídicas. Por ser a que apresenta mais estudos clínicos entre as três disponíveis, anfotericina B lipossomal tem sido a preferida.

Nos últimos três anos, dois trabalhos de grande impacto científico no tratamento antifúngico empírico em neutropenia febril foram publicados. Estes dois trabalhos tinham as seguintes semelhanças: a) objetivo primário era determinar que o novo antifúngico não era inferior à anfotericina B lipossomal e b) o sucesso era definido por um “desfecho composto”, isto é, ao contrário do trabalho histórico de Pizzo em 1982, que sucesso era definido apenas como “cessação de febre” ou defervescência, vários outros itens foram analisados, destacando-se: cura da infecção fúngica se esta acabou sendo diagnosticada nos dias subseqüentes ao início empírico do tratamento, sobrevivência à infecção fúngica, não descontinuidade do tratamento por efeitos colaterais, além da defervescência.

O primeiro,publicado por Walsh e colaboradores, em 2002, comparou voriconazol com anfotericina B lipossomal. Apesar do voriconazol apresentar bom espectro de ação para Candida e Aspergillus, os dois fungos mais importantes em neutropênicos febris, no estudo estatístico o objetivo de demonstrar que voriconazol era “não-inferior” à anfotericina B lipossomal não foi atingido, motivo pelo qual até a presente data o voriconazol não recebeu aprovação para esta indicação.

Já em 2004 foi publicado estudo clínico que comparou caspofungina com anfotericina B lipossomal. A caspofungina atingiu o objetivo de demonstrar “não-inferioridade”, além de apresentar menor toxicidade. Além disto, houve influência favorável à caspofungina na análise de sobrevida em sete dias e sobrevida quando infecção fúngica foi diagnosticada. Este estudo permitiu a aprovação da caspofungina em neutropenia febril, tendo como principais vantagens a eficácia; no mínimo tão eficaz quanto a anfotericina B lipossomal, e mínima toxicidade.

REFERÊNCIAS

1. Wingard JR. Empirical antifungal therapy in treating febrile neutropenic patients. Clin Infect Dis 2004;39:S38-43.
2. Goodman JL et al. A controlled trial of fluconazole to prevent fungal infections in patients undergoing bone marrow transplantation. N Engl J Med 1992;236:845-851.
3. Pizzo PA et al. Empiric antibiotic and antifungal therapy for cancer patients with prolonged fever and granulocytopenia. Am J Med 1982;72:101-111.
4. EORTC International Antimicrobial Therapy Cooperative Group. Empiric antifungal therapy in febrile granulocytopenic patients. Am J Med 1898;86:668-72.
5. Hughes WT et al. 2002 guidelines for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer. Clin Infect Dis 2002;34:730-51.
6. Walsh TJ et al. Voriconazole compared with liposomal amphotericin B for empirical antifungal therapy in patients with neutropenia and persistent fever. N Engl J Med 2002;346:225-34.
7. Walsh TJ et al. Caspofungin versus liposomal amphotericin B for empirical antifungal therapy in patients with persistent fever and neutropenia. N Engl J Med 2004;351:1391-1402.




Aspergilose Invasiva. Quais são as Novidades?


Dr. Clóvis Arns da Cunha1 - Dra. Viviane M. Carvalho Hessel Dias2
1Chefe do Serviço de Infectologia do HC-UFPR e do Hospital Nossa Senhora das Graças,
Curitiba PR. Professor de Infectologiada UFPR. Infectologista do Serviço de Transplante de Medula
Óssea do HC-UFPR. Especialista (Clinical Fellow)em Infectologia pela Universidade de Minnesota, EUA.
2Especialista em Clínica Médica pelo HC-UFPR. Residente em Infectologia do Hospital Nossa Senhora das Graças,Curitiba-PR. Visiting Fellow de Infectologia na Universidade de Minnesota, EUA.




A aspergilose invasiva geralmente se apresenta como infecção sinopulmonar (comprometimento dos seios da face e pulmões), podendo ocorrer angioinvasão e disseminação para o cérebro, fígado, baço e outros órgãos. Tem como principal fator de risco a duração e intensidade da neutropenia. Pacientes com duas ou mais semanas de neutropenia passam a apresentar risco desta grave infecção fúngica,que apresenta alta mortalidade. Outro fator de risco é o uso de corticóide e outras drogas imunossupressoras para tratamento da doença enxerto X hospedeiro em pacientes submetidos a transplante de células-tronco hematopoiéticas.

Trabalho publicado em 2002 por Herbrecht e colaboradores comparou, de forma randomizada, pacientes com aspergilose provada (também denominada comprovada ou definida) e provável, que receberam anfotericina B desoxicolato na dose de 1-1,5 mg/kg por dia com voriconazol na dose de 6 mg/kg cada 12 horas no primeiro dia, seguido de 4 mg/kg cada 12 horas. Na análise de 12 semanas, 52% dos pacientes no grupo voriconazol apresentaram sucesso terapêutico, contra 31% no grupo anfotericina B. A sobrevida também foi estatisticamente superior no grupo voriconazol: 71% X 58%. Pacientes tratados com voriconazol tiveram significativamente menos eventos adversos, exceto distúrbios visuais transitórios. Observou-se resposta superior no grupo que recebeu este novo azólico, tanto em pacientes neutropênicos como não-neutropênicos. Este estudo estabeleceu o voriconazol como droga de primeira escolha para tratamento primário de pacientes com aspergilose invasiva. Importante observar que pacientes que apresentam clearance de creatinina inferior a 50 ml/min não devem receber a apresentação intravenosa do voriconazol devido ao acúmulo de seu veículo, a ciclodextrina. Já a apresentação oral não tem esta restrição.

Em 2004, Maertens e colaboradores publicaram estudo multicêntrico, não-comparativo, de pacientes com aspergilose invasiva refratária (resposta inadequada em sete dias de terapêutica antifúngica sistêmica) ou intolerante (nefrotoxicidade à terapia com anfotericina B) que utilizaram caspofungina. Foram incluídos 83 pacientes, sendo 71 “refratários” e 12 “intolerantes”. Houve resposta favorável em 26% dos pacientes neutropênicos e em 50% dos não-neutropênicos. Quando a indicação de uso foi aspergilose refratária, 39% apresentaram sucesso. Quando a indicação foi aspergilose refratária, 75% dos pacientes apresentaram boa resposta. Este estudo levou à aprovação da caspofungina para uso em aspergilose invasiva refratária ou intolerante.

Nos dois últimos anos, algumas publicações com relatos de casos ou séries de casos têm analisado a resposta ao uso combinado de voriconazol + caspofungina, ou caspofungina + anfotericina B, ou voriconazol + anfotericina B em aspergilose invasiva. Embora, do ponto de vista científico, a “força” científica destas publicações seja menor do que a dos dois trabalhos que levaram à aprovação do voriconazol e da caspofungina, a combinação de antifúngicos pode ser considerada nos casos refratários.

REFERÊNCIAS

1. Karp JE et al. An approach to intensive antileukemia therapy in patients with previous invasive aspergillosis. Am J Med 1998;85:203-6.
2. Walsh TJ et al. Voriconazole in the treatment of aspergillosis, scedosporiosis and other invasive fungal infections in children. Pediatr Infect Dis J 2002;21:240-8
3. Voriconazole compared with amphotericin B in patients with invasive aspergilosis. N Engl J Med 347; 408, 2002.
4. Caspofungin as salvage therapy in aspergilosis. Transpl Inf Dis 1:25,2002.



Depoimento dos Participantes





“O Infocus discutiu amplamente o tema infecções fúngicas e promoveu uma importante atualização em diversos aspectos; destaco minha área de interesse, o transplante e as doenças onco-hematológicas. O Infocus debateu a entrada de novas drogas, tais como as formulações lipídicas e os azólicos e mostrou as mudanças de espectro quanto às infecções fúngicas. Naturalmente, quando se tem mudança de espectro e novas drogas, temos uma mudança considerável de conduta e um espaço muito grande para discussão e para polêmica. Por esta razão, esta foi uma importante oportunidade de termos no Brasil um evento com um padrão internacional. A integração entre os profissionais de diferentes especialidades também foi fundamental; evidentemente cada um terá maior interesse na sua área, mas ouvir o que está acontecendo na outra pode auxiliar na sua atuação.”

Dr. Ângelo Maiolino
Coordenador da Unidade de Transplante de Medula Óssea do HospitalUniversitário da UFRJ.






“O Infocus é um evento muito importante para todos os infectologistas, no sentido da atualização que promove. É sempre muito prático e reúne pessoas que realmente têm vivência prática e que discutem os problemas desta área embasados no dia-a-dia. Com a evolução desta área das infecções fúngicas nos últimos anos, este encontro anual tem se tornado cada vez mais importante.Todos os Infocus de que participei tiveram este foco da praticidade e mantiveram um bom nível a cada edição. Acredito ser este o segredo de sucesso deste evento.”

Dra. Denise Marangoni
Infectologista. CCIH do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho.Vice-Presidente da
Sociedade Brasileira de Infectologia.






“As infecções fúngicas têm se tornado cada vez mais importantes nas unidades de terapia intensiva e nas unidades que praticam quimioterapia. Neste Infocus achei bastante interessante o enfoque sobre as micoses endêmicas e questões epidemiológicas nas quais a cada dia temos tido menos recursos para diagnosticar ou acompanhar a terapêutica destes pacientes. Embora estejamos praticando uma medicina cada vez melhor, não podemos esquecer que precisamos ter a nossa própria forma de tratar, seja nas micoses endêmicas ou em outras patologias. Em todas edições do Infocus as infecções fúngicas constituem uma novidade, tanto em incidência quanto freqüência e diagnóstico. Procuramos sempre nos atualizar com serviços que estão tendo melhores recursos, não só para tratar, mas também para diagnosticar e encontramos isso no Infocus.”

Dra. Cássia Godoy Miranda
Infectologista do Hospital de Doenças Tropicais de Goiânia e do Controle de Infecção
Hospitalar no Hospital de Doenças Tropicais e no Hospital do Câncer de Goiânia.