Insuficiência Cardíaca:
O Que Há De Novo?



Por Luciana Rodriguez



Dra. Nadine Clausell


O IV Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, realizado em Gramado, entre os dias 23 e 25 de junho proporcionou ao público presente uma importante atualização em diversos temas relacionados à insuficiência cardíaca (IC). Promovido pelo Grupo de Estudos de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o evento reuniu renomados palestrantes nacionais e internacionais, que debateram sobre temas como morte súbita, células-tronco, miocardiopatia chagásica, beta-bloqueadores e insuficiência cardíaca, insuficiência cardíaca descompensada, miocardiopatias, insuficiência cardíaca em situações específicas, tais como na criança, na gestação, no paciente de raça negra e no paciente terminal, entre outras abordagens.


Dr. Renato Barroso Pereira de Castro
Médico Assistente da Divisão de Cardiologia do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.


Segundo a presidente do congresso e coordenadora do Grupo de Insuficiência Cardíaca do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Dra. Nadine Clausell, os temas que tiveram maior repercussão durante o congresso foram os avanços dos novos medicamentos para insuficiência cardíaca descompensada e o uso de dispositivos como desfibriladores e marcapassos específicos no tratamento desta doença. Além disto, a especialista destacou a mesa-redonda que discutiu a terapia celular na insuficiência cardíaca. que segundo ela serviu como excelente ponto de atualização, e outra mesa que abordou o tratamento de anemia nos pacientes com insuficiência cardíaca.

O grande objetivo do Congresso foi trazer o que há de mais avançado no conhecimento da insuficiência cardíaca, atualizando clínicos e cardiologistas. “Consideramos que atingimos nossos objetivos através de um programa científico intenso, com a participação de um total de 75 palestrantes, sendo 5 internacionais, que vieram especialmente para o evento. Mantivemos um bom número de inscritos, 676, para uma atividade que é uma subespecialidade da cardiologia”, conta Dra. Nadine que já está envolvida na preparação do V Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, que será realizado na Pousada do Rio Quente, Goiás, de 29 de junho a 1° de julho de 2006.

Veja a seguir o comentário do Dr. Renato Barroso Pereira de Castro, Médico Assistente da Divisão de Cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e da Dra. Estela Suzana Horowithz, Cardiologista Pediátrica do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul e Responsável pela Unidade de Pós-Operatório Cardíaco Pediátrico e Transplante Cardíaco Pediátrico sobre suas respectivas apresentações durante o evento.

IC predominantemente direita

“A insuficiência do ventrículo direito está sempre presente em algum grau na insuficiência cardíaca de um modo geral. A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) constitui causa freqüente de hipertensão pulmonar e, conseqüentemente, de falência predominante da câmara direita. Estes pacientes possuem algumas peculiaridades, tanto na apresentação quanto no manejo clínico.

A falência do ventrículo direito por causa pulmonar, o chamado cor pulmonale, é um acometimento do coração secundário a um problema no pulmão, tais como bronquite, enfisema ou também oclusão de vasos pulmonares pelo tromboembolismo pulmonar. Nestes casos, é fundamental conhecer a história dos pacientes e verificar se são portadores de DPOC ou têm história prévia sugestiva de tromboembolismo pulmonar, além de outras doenças como vasculites e doenças auto-imunes (como lúpus e esclerodermia).

Portanto, através da história do paciente podemos chegar ao fator gerador inicial da sobrecarga do ventrículo direito. Geralmente são pacientes com pouca congestão pulmonar e muita congestão venosa, manifesta clinicamente por edema, ascite, hepatomegalia, etc.

A redução da resistência vascular pulmonar é uma medida fundamental e com impacto prognóstico nestes doentes. Uma das dificuldades, no entanto, é vasodilatar especificamente a circulação pulmonar. Vasodilatadores sistêmicos, como a hidralazina e alguns antagonistas de cálcio, podem induzir vasodilatação pulmonar, mas o fazem de modo muito acentuado na circulação sistêmica, o que pode resultar em hipotensão grave, inviabilizando seu uso. Drogas mais modernas, como as prostaciclinas e os inibidores dos receptores de endotelina, tendem a ter uma ação mais específica na circulação pulmonar, mas ainda não temos estudos em longo prazo sobre o real benefício destas drogas. Embora as perspectivas sejam promissoras, sua aplicabilidade pressupõe a redução de custos, ainda proibitivos para a maioria de nossos pacientes.”

Miocardiopatia Peri-Parto

“Miocardiopatia não compactada é uma doença do músculo cardíaco que pode ter sua origem na infância, muito provavelmente congênita. Tem evolução variada, podendo chegar tanto a um quadro de IC quanto de morte súbita ou pode evoluir para estabilização clinica com pouca repercussão.

Miocardiopatia na infância: A maioria dos estudos que testam medicamentos em pacientes com miocardiopatia é realizada em adultos, sendo raríssimos aqueles conduzidos em pacientes pediátricos. Por esta razão, cardiologistas pediátricos extrapolam a literatura adulta e adaptam à criança, não havendo, portanto, muita diferença em relação ao tipo de medicamento, mas sim quanto à maneira de administração e dosagens. Quanto menor a criança, mais grave a doença.

Na displasia arritmogênica do ventrículo direito, a principal dificuldade é o diagnóstico. Muitas vezes, o paciente e assintomático. Outra dificuldade é prognosticar aqueles pacientes que realmente terão uma evolução desfavorável e que necessitarão de um tratamento mais agressivo. Especificamente na criança, a displasia arritmogênica é rara.

Miocardites: Nas crianças, as miocardites, ou seja, doença do músculo cardíaco causada por infecção viral na grande maioria, pode se apresentar de forma muito grave ou pouco sintomática.

Outro problema em pediatria é a maneira de administrar medicamentos, a formulação das doses que nem sempre são disponíveis em solução oral para crianças pequenas.

Miocardiopatias: O melhor tratamento ainda é o clínico com medicamentos, mas quando não há solução, a doença acaba evoluindo para um transplante cardíaco. Nos casos das doenças com risco de morte súbita, o implante de marcapasso e o desfibrilador podem prevenir e melhorar a sobrevida destes pacientes.

É importante ressaltar que muitas dessas doenças miocárdicas se manifestam na vida adulta, mas têm origem na infância. Por isso, é importante que crianças e jovens que praticam atividade física sejam acompanhados por um cardiologista e sejam rastreados, porque muitas dessas doenças são diagnósticos ocasionais em exames de rastreamento.”