Dr. Haggéas da Silveira Fernandes*
O Congresso e Uma Especialidade


Estamos nos aproximando de mais um Congresso Brasileiro de Terapia Intensiva, este ano, em Recife, Pernambuco. Congresso esse que a cada edição cresce mais em números e importância, não só no nosso país, mas em nível mundial.

Teremos a oportunidade de conviver por alguns dias com formadores de opinião nacionais e internacionais, trocar idéias com colegas de especialidade, ver novidades tecnológicas, além de avaliar nossos protocolos diários (rotinas das UTIs) e, quem sabe, conhecer um pouco da cultura de Pernambuco. Inovações como o curso pré-congresso de sepse, resultado da parceria do Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS) com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), pioneiro em trazer para a comunidade da Terapia Intensiva os guidelines atualizados da Surviving Sepsis Campaign, além de outras informações sobre essa complexa doença.

Considero, entretanto, que esse congresso deva ser antes de tudo um momento de reflexão, por parte das influentes pessoas que lá estarão, da fase pela qual a Medicina Intensiva brasileira está passando.

Tão importante quanto o aspecto científico, seria fundamental discutirmos abertamente os graves problemas com que o intensivista brasileiro e a especialidade como um todo estão se confrontando no dia-a-dia. Prioritariamente, encontrar maneiras de valorizar o especialista em Medicina Intensiva. E quando falo especialista, não me refiro ao médico de outra especialidade que faz a prova de título e se considera apto para exercer o Intensivismo, e sim o médico que após dois anos de residência básica dedicou mais dois anos de sua vida à residência de Terapia Intensiva, tendo que conviver hoje, de igual para igual, em termos de mercado, com aquele que não tem formação de Medicina Intensiva, porém se acha em condições de ser tão intensivista quanto o verdadeiro intensivista. Seria oportuno avaliar formas de diferenciar honorários, cargos, atividades dos intensivistas. Seria oportuno avaliar o lado psicológico desse médico, que vive sob o stress de uma rotina estafante, que financeiramente encontra-se asfixiado, com uma carga horária de plantões desumana, com pouco tempo para o lazer e para o descanso. E ainda tendo que sobreviver a essa concorrência de mercado, cada vez mais desgastante.

Gostaria de chamar atenção para as pessoas que realmente têm o poder de mudar a situação, pois esse é o momento. Não podemos mais aguardar. Os problemas estão aí evoluindo e piorando a cada dia. Se graves na Medicina como um todo, tornando-se mais evidentes na Terapia Intensiva.

Um dos maiores indicadores dessa situação é a falta de procura por vagas de residência em Medicina Intensiva, o que ficou muito claro este ano, com alguns importantes centros formadores sem residentes. O questionamento é sempre o mesmo: por que fazer Medicina Intensiva se eu posso “dar plantão” em UTI e ser Cardiologista, Endocrinologista, Nefrologista, etc. E receber o mesmo grau de importância, o mesmo honorário, o mesmo tratamento das fontes empregadoras.

Senhores formadores de opinião: o Congresso Brasileiro de Medicina Intensiva de Recife tem uma importância crucial no futuro da nossa especialidade. Importância científica, sem dúvida, mas também, e principalmente, importância quanto ao que queremos como futuro para a nossa especialidade. É chegada a hora de sentarmos à mesa, confrontarmos nossos interesses, valorizarmos a nós mesmos, para que a situação fique sob controle e obviamente melhore.

Tenho certeza que a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) possui o mesmo ideal, a mesma visão que este editorial, não fechando as portas para médicos de outras especialidades, até porque não estamos ainda dando conta da demanda, da necessidade de profissionais médicos para uma equipe completa de assistentes em uma Unidade de Terapia Intensiva, mas procurando viabilizar idéias que culminem com a valorização do médico intensivista. E, sinceramente, vejo nesse encontro de tão grande magnitude o momento da AMIB se pronunciar e defender sua razão de ser, a Medicina Intensiva e o intensivista.

Um bom congresso a todos!


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* Médico Assistente Diarista do Setor de Terapia Intensiva, Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da EPM/Unifesp.

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PS: Este editorial expressa opinião pessoal do autor, que não necessariamente é rigorosamente igual à do serviço do qual o mesmo faz parte.