Qualidade de Vida e Atividades Cotidianas dos
Pacientes Ostomizados Definitivos*

Quality of Life and Activities of Daily Living of Definite Stoma Patients


Virginia Deiró Nosella1 - Marielza R. I. Martins2 - Dr. João Gomes Netinho3
1Terapeuta Ocupacional com Aprimoramento em Terapia Ocupacional em Hospital Geral,
Hospital de Base - FUNFARME/FAMERP.
2Terapeuta Ocupacional. Doutoranda em Ciências da Saúde/FAMERP
e Supervisora de Aprimoramento, Hospital de Base - FUNFARME/FAMERP.
3Médico Coloproctologista. Chefe do Serviço de Coloproctologia,
Hospital de Base - FUNFARME/FAMERP.


*Serviço de Coloproctologia do Hospital de Base de São José do Rio Preto/Faculdade de
Medicina de Rio Preto - FUNFARME/FAMRP.

Virginia Deiró Nosella (à esq.), Dr. João Gomes Netinho e Marielza R. I. Martins.

RESUMO

Avaliar a qualidade de vida vem se tornando um importante adjuvante na análise de intervenções terapêuticas. Este estudo objetivou identificar a qualidade de vida de pacientes ostomizados definitivos e as atividades de vida diária que comprometem seu cotidiano.

Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, onde foram pesquisados 40 pacientes com ostomia definitiva, mas apenas 13 atenderam aos critérios de inclusão. Utilizou-se entrevista semi-estruturada e o questionário genérico WHOQOL-100. Os dados foram submetidos a análise estatística, com nível de significância de 5%. Os resultados apresentam prejuízo na qualidade de vida, demonstrando menores escores no domínio físico e nível de independência, e melhores no domínio de aspectos espirituais/religião/crenças pessoais. As atividades de trabalho e cuidados pessoais foram as mais comprometidas.

Palavras-chave: Qualidade de vida, Ostomia definitiva, Atividades da vida diária.


ABSTRACT

Evaluating the quality of life has been important associate in analysis of the therapeutics interventions. This study was aimed identifying the quality of life of definite stoma and activities of daily living impairment your daily life.
This is a descriptive and exploratory study, including 40 definite stoma patients, but only 13 met the inclusion criteria. The generic WHOQOL-100 questionnaire quality of life and a semi-estrutuctured interview were used as data collection instruments. Data was subject to a statistical analysis, with a significance level of 5%. The results showed impaired quality of life of the patients, with lower scores for physical dimension and independency level, and improvement spiritual dimension. The work and personal care activities were the most affected in the global sample
.

Key words: Quality of life, Definite stoma, Activities of daily living.


INTRODUÇÃO

Ostomia intestinal é uma cavidade criada através de um processo cirúrgico pelo qual se exterioriza o intestino, com o objetivo de obter uma outra saída para eliminação fecal, podendo ser permanente (definitiva) ou temporária.(1)

A realização de estomas intestinais faz parte do tratamento cirúrgico de diversas doenças, como tumores colorretais, diverticulite, doenças intestinais inflamatórias, doença de Crohn, infecções perineais graves, entre outras.(1,2)

A extensa e complexa problemática inerente à vivência da cronicidade da doença e/ou seqüela, representada aqui pela ostomia, tem conduzido vários autores a desenvolver estudos objetivando analisar o impacto destas condições sobre a qualidade de vida (QV) em diferentes aspectos.(3)

A ostomia definitiva produz mudanças na imagem corporal do paciente, que irão influenciá-lo em vários aspectos de sua vida futura. A aceitação desta mudança pode ser exercida por fatores intrapsíquicos, pelas pessoas que possuem algum vínculo afetivo com o ostomizado e pela sua condição social, econômica e cultural.(4)

Michelonne e cols.(5) relatam, em seu estudo, que a pessoa ostomizada sente que sua vida útil e produtiva terminou, influenciando inclusive suas atividades de vida diária e vida prática.

O artigo de Sprangers(6) corrobora esta problemática do adulto ostomizado, sendo exacerbada pela presença do componente estigmatizante e mutilante como o ostoma, que certamente proporciona drásticas mudanças no estilo de vida, fazendo com que o paciente assuma outras incumbências em presença de tal derivação.

Na literatura, autores como Bandeira e cols.(7) e Rubin e Devlin(8) relatam que estas pessoas deparam-se com a mutilação de sua imagem corporal e auto-estima, com sentimento de repugnância de si mesmas, de desprestigio diante da sociedade e de não serem capazes de enfrentar tal situação.

Segundo Trentini,(9) indivíduos ostomizados enfrentam várias perdas, que podem ser reais ou simbólicas, tais como a perda do controle e eliminação de fezes e gases, condição mandatória para a vida em sociedade. Estas situações podem acarretar um isolamento psicológico e social, afetando assim sua QV.

Atuais pesquisas têm procurado identificar aspectos subjetivos capazes de descrever melhor a QV e, desta maneira, justifica-se o crescente aparecimento de técnicas para mensurá-la. É consenso que a QV tem se tornado um importante critério na avaliação da efetividade de tratamento e nas intervenções da área da saúde.(10,11)

Atualmente, enfoca-se a assistência interdisciplinar, psicossocial, bem como equipamentos e acessórios necessários, buscando com isto a readaptação precoce destes indivíduos. A capacitação para seu autocuidado os torna independentes e capazes, propiciando sua total reintegração social.(7,9)

Desta forma, o impacto biopsicossocial do indivíduo portador de ostomia intestinal definitiva é determinado por diversos fatores que repercutem em todos os aspectos de sua vida. Tal impacto leva à necessidade de que o saber científico seja revertido em intervenções assistenciais que proporcionem qualidade de vida para pacientes, familiares e profissionais envolvidos neste contexto.

Assim, o presente estudo teve por objetivo identificar de forma mais clara quais são as dificuldades que esta clientela encontra no seu cotidiano e avaliar a QV destes indivíduos atendidos em um Serviço de Coloproctologia de um hospital escola.

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo e exploratório desenvolvido no Serviço de Coloproctologia do hospital escola - Hospital de Base/Faculdade de Medicina de Rio Preto (FAMERP), em 2004.

Inicialmente, o projeto foi submetido à Comissão de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da FAMERP e, somente após sua aprovação, deu-se início ao rastreamento da população envolvida e, posteriormente, à coleta de dados.

Este serviço possui uma média de 455 pacientes com ostomia em circulação, sendo cerca de 40 pacientes com ostomia definitiva, mas apenas 13 atenderam aos critérios de inclusão. Foram incluídos pacientes maiores de 18 anos, ambos os sexos, que já possuíssem ostomia definitiva no período de quatro meses a dois anos, com condições cognitivas de responder ao questionário.

Pacientes que preenchiam estes critérios eram informados sobre o estudo e, caso concordassem, assinavam o termo de consentimento.

Para avaliação dos pacientes foi utilizada uma entrevista semi-estruturada contendo dados socioeconômicos e atividades rotineiras (alimentação, realização das atividades domésticas, cuidados pessoais) e instrumentais (trabalho, lazer, acesso ao material para o ostoma) de vida diária, que poderiam vir a ser prejudicadas pela condição de ostomizado definitivo.

Para avaliar a QV utilizou-se o Questionário WHOQOL-100,(12) criado pelo grupo de estudos sobre QV da Organização Mundial da Saúde (OMS), que possui propriedades psicométricas satisfatórias e foi normatizado no Brasil em 1998. Este instrumento é composto por 100 questões que se referem a seis domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio ambiente e espiritualidade.

Para atender os objetivos propostos foi realizada a análise estatística descritiva dos dados sociodemográficos e clínicos, e foi aplicado o WHOQOL-100 através do cálculo da média e do desvio padrão. O teste de comparação de proporções foi aplicado para analisar as atividades de vida diária comprometidas.

Cumpre enfatizar que o WHOQOL-100 não permite o estabelecimento de um escore total único, visto que a QV é um construto multidimensional, havendo, portanto, maior coerência ao considerar-se cada domínio e respectivo escore individualmente.(5)

Em todas as análises, o p-value inferior a 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

RESULTADOS

Quanto às características sociodemográficas, houve predomínio de pessoas do sexo masculino, situação conjugal com companheiro, nível educacional I grau incompleto e aposentados.

O tempo de ostomia definitiva variou entre dez meses e dois anos, sendo que 70% teve como doença de base TU colorretal. A média de idade da amostra foi de 60,4 anos (desvio padrão 12,070), 90% em atendimento ambulatorial, e 58% mostrava que a ostomia modificou seus hábitos diários. A tabela 1 mostra a freqüência das variáveis sociodemográficas.



As variáveis relacionadas às atividades da vida diária, comprometidas pela realização do ostoma, foram analisadas observando o percentual de ocorrências. A tabela 2 mostra a distribuição de percentuais de ocorrência de cada atividade comprometida.



Os resultados relativos aos componentes emocionais prejudicados devido à ostomia indicaram, em ordem decrescente, a alteração na imagem corporal (55%) e a alteração negativa no modo de se vestir (34%) como os mais citados. A alteração negativa na auto-estima, no contato visual e em relação ao ostoma ou ao corpo obtiveram apenas uma citação (11%).

Quanto aos sentimentos mais presentes logo após a cirurgia, foram: alegria e esperança (22%), tristeza, nervosismo e vergonha (11%).

Os dados da tabela 3 mostram a freqüência de perguntas fechadas em relação à ostomia.



Análise da qualidade de vida
Na tabela 4 são apresentados os escores médios obtidos nos seis domínios do WHOQOL-100.
Os dados revelam que o domínio físico e o nível de independência, cujos itens são mobilidade, capacidade de trabalho, dor e desconforto e atividades da vida cotidiana, obtiveram os menores valores. E os dados do domínio espiritual, religião, crenças pessoais, etc. obtiveram os maiores valores.



Diante destes resultados, obteve-se melhor conhecimento sobre a realidade regional destes indivíduos. Tal conhecimento, correlacionado ao contexto social, cultural e político, permite uma estratégia mais eficiente de intervenções, pois estará de acordo com as necessidades de saúde da população estudada.

DISCUSSÃO

Como dissemos, de acordo com os dados sociodemográficos, houve predomínio do sexo masculino, o que corrobora a tese que afirma ser o tumor colorretal mais freqüente em homens.(13) A idade foi também uma variável analisada em outros estudos, que concluem ser a faixa etária dos 40 aos 70 anos(14) a mais freqüente.

No que diz respeito ao estado civil, estudos internacionais apontam a prevalência de 60% a 90% dos pacientes casados, enquanto estudos nacionais revelam valores de 60% a 85%.(5,14)

Quanto à escolaridade, o maior percentual de pacientes encontra-se no 1º grau incompleto (média de cinco anos de estudo). Pesquisas(15,16) consideram este aspecto, entre o perfil psicossocial destes pacientes, um dos mais importantes a ser estudado, contudo pouco considerado.

Dados referentes à mudança de hábitos destes pacientes após a ostomia definitiva são avaliados por outros estudos que relatam inúmeras perdas e mudanças vivenciadas por estes indivíduos, caracterizando o trabalho, os cuidados pessoais, as atividades domésticas e a sexualidade como os mais comprometidos. Alguns autores também mencionam ser a capacidade de trabalho afetada entre 20 e 90% dos ostomizados.(5,13,17)

Os achados referentes aos aspectos emocionais, aos sentimentos, após a ostomia, revelaram que a equipe multidisciplinar deve propiciar uma atenção e assistência integrais e integradas a estes pacientes.(9)

Quanto à análise da QV desta amostra, os escores médios obtidos dos vários domínios indicam valores similares a populações de ostomizados previamente estudadas por Michelone e Santos (2005), Trentini et al (1997) e Black (2004), que constataram o domínio físico e o nível de independência com menores escores.

Na literatura internacional, um estudo realizado no Japão(18) mostra ser o domínio físico mais comprometido no grupo mais idoso e o domínio psicológico e relações sociais no grupo mais jovem.

Contrapondo-se a estes resultados, outros pesquisadores(19) apresentaram maiores escores no nível de independência, domínio físico e ambiente.

O domínio da espiritualidade, religião e crenças pessoais, como já dissemos, foi o que apresentou melhores escores de QV, demonstrando assim que enfrentar o ostoma, através da religiosidade, pode contribuir para melhor QV. Um outro estudo, de Michelone e Santos (2004), apresentou resultados similares.

Na tabela 4 registra-se que o domínio ambiente teve resultado semelhante ao de um estudo argentino, de Bonicatto e et al (2001).(20) Tal resultado demonstra que os itens de oportunidade de recreação e lazer e de recursos financeiros são os mais prejudicados.

As pesquisas nesta área possibilitam obter dados e informações que despertam na equipe multidisciplinar potencialidades e permitem criar ações transformadoras para esses indivíduos e seus familiares. Contudo, ressalta-se que ainda existem poucas informações acerca da QV desta clientela. Ressalta-se também que este estudo piloto recomenda a utilização de abordagens interdisciplinares e uma prática multiprofissional, sendo necessário que os profissionais de saúde aprofundem estudos sobre a realidade humana e social para realizarem transformações mais adequadas às pessoas ostomizadas.

REFERÊNCIAS

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