Alergia ao Látex:
Uma Preocupação Sempre Presente

Prof. Dr. Carlos Alberto de Souza Martins
Professor Adjunto de Farmacologia da Universidade Federal do Maranhão.
Coordenador do Curso de Medicina da UFMA.


Na sua rotina diária de trabalho, o anestesiologista depara-se com inúmeras situações que desafiam o seu preparo técnico, seu discernimento, sua capacidade e velocidade de reação, de forma a realizar com tranqüilidade e segurança o ato anestésico sob a sua responsabilidade. Dentre esses desafios encontra-se a alergia ao látex – um problema médico reconhecido pela primeira vez em 1979(1) e cuja incidência tem aumentado muito desde então, provavelmente em conseqüência do uso difundido de luvas de borracha que, no mundo inteiro, são a principal origem das proteínas implicadas na maioria dos casos de reações mediadas pelo látex(2,3) e que passaram a ser usadas como forma de prevenção de doenças transmissíveis causadas principalmente pelo HIV e pelos vírus da hepatite B e C.

É importante destacar, também, que o anestesiologista é um profissional de risco para o desenvolvimento de alergia ao látex como doença ocupacional(4,5). Durante as últimas duas décadas, o látex tem emergido como a segunda causa mais comum de anafilaxia em ambientes cirúrgicos – (16,6%) dos casos(6). Muito embora um estudo francês, no entanto, mostre uma redução na incidência desse evento como conseqüência da identificação dos pacientes de risco para o aparecimento da reação alérgica(7). A borracha natural de látex (cis-1,4-polyisoprene) ou simplesmente látex, é o fluido leitoso (seiva) obtido primariamente da seringueira – Hevea brasiliensis e encontra-se presente em inúmeros materiais existentes no ambiente hospitalar, tais como: luvas, equipamentos de anestesia, materiais para vias aéreas, equipamentos intravenosos, equipamentos para monitorização; além de esparadrapo, sistema de ACP, sondas nasogástricas e bolsas para ostomias.

No presente momento não há cura para a alergia ao látex e evitar o contato com produtos que o contém é obrigatório para os pacientes portadores dessa patologia. A alergia ao látex pode manifestar-se como eczema, urticária, rinite ou conjuntivite, angioedema, crise de asma e até chegar a um quadro mais grave e ameaçador da vida, como é o caso do choque anafilático. A severidade da reação vai depender: do grau de sensibilidade do paciente, a forma como o contato ocorre e da quantidade de alérgeno de látex a que ele foi submetido. No intra-operatório, a maior fonte de proteínas do látex implicadas nas reações são as luvas cirúrgicas. O látex da Hevea brasiliensis contém proteínas bem caracterizadas(8). O fator de alongamento da borracha da árvore da borracha (Hevea brasiliensis ou Hev b) é o maior alérgeno contido no látex(9) e há 11 Hev b proteínas (Hev b 1 a Hev b 11), das quais a profilin (Hev b 5 com 18 a 20 kd) e a hevein (Hev b 6.02 com 4,7 kd) são exemplos comuns. Há registros de um outro componente de 14 kd como sendo um importante alérgeno encontrado no látex.

A sensibilização pelo Hev b 5 é muito freqüente entre os trabalhadores da saúde. As reações intra-operatórias podem ter o seu início retardado em decorrência do tempo de contato das superfícies internas, membranas mucosas e as luvas do cirurgião. É importante destacar que a capacidade de sensibilizar e de desencadear reações IgE mediadas varia entre as diferentes marcas de luvas cirúrgicas. Com o aumento da demanda houve uma redução no tempo de processamento – prática de colheita e manufatura dos produtos, o que levou, por outro lado, a um aumento das proteínas no látex e do seu grau de alergenicidade. Yunginger e cols.(2), ao extraírem alérgenos e proteínas do látex usado na fabricação de luvas e outros dispositivos descartáveis, encontraram diferenças de 3.000 vezes no conteúdo do látex usado na fabricação de dez diferentes marcas de luvas. Os diversos fabricantes usam métodos, padronização e tempos de processamento diferentes. O talco usado nas luvas liga-se às proteínas do látex e atua como carreador de alérgenos, uma vez que essas partículas são liberadas no ar ambiente e podem ser inaladas. Sendo esta uma via de sensibilização e de desencadeamento de reações anafiláticas que não pode ser desprezada. Há, inclusive, relatos de casos como o feito por Eckout e Ayad(10), onde uma primigesta de 32 semanas apresentou urticária generalizada, dispnéia progressiva, hipotensão arterial e bradicardia fetal, minutos após uma enfermeira ter descalçado, próximo a ela, as luvas de látex que usava.

REAÇÕES ASSOCIADAS AO LÁTEX

A presença de anticorpos (IgE) para o látex, sem manifestações clínicas, é característica da sensibilização ao látex. A sensibilização nem sempre leva a alergia ao látex mesmo se houver um novo contato com produtos à base dessa substância. A alergia ao látex se refere a qualquer reação a esse produto que seja mediada por anticorpos, acompanhadas por manifestações clínicas e inclui as reações de hipersensibilidade tipo I e IV desencadeadas pelas proteínas do látex. Uma outra reação associada ao látex, mas não causada pelo mesmo, é a dermatite de contato.

A dermatite irritante de contato – reação alérgica nas mãos ou qualquer outra parte do corpo após contato com produtos que contêm látex. Essa reação é a mais comum entre as associadas ao látex, pode se desenvolver depois de alguns minutos ou horas após o contato; pode ocorrer na primeira exposição, é usualmente benigna e não ameaça a vida. Normalmente é causada pelas substâncias adicionadas aos produtos e não ao látex. Os sintomas são coceira, inchaço e eczema na pele afetada. O pH alcalino das luvas entalcadas parece ser a causa mais comum da reação.

A dermatite alérgica de contato ou reação de hipersensibilidade do tipo IV, mediada por células – é uma reação imunológica de início retardado, resultante da sensibilização provocada por aditivos do látex, mediada por células T; não ameaça a vida, é mais comum do que a do tipo I, inicia-se cerca de 48 a 72 horas após contatos repetidos e manifesta-se por eritema com vesículas e escamas.

A reação de hipersensibilidade do tipo I, mediada por IgE – é a mais severa das reações e pode levar a morbidade e mortalidade significativas. Requer sensibilização e produção de anticorpos do tipo IgE. No primeiro contato os pacientes são sensibilizados, produzem IgE específica para proteínas Hev b que atuam como antígenos, ativam linfócitos CD4 e células T helper do tipo 2 (Th2 cells) e induzem células B a formar células plasmáticas secretoras de IgE específicas para as proteínas da Hev b. A IgE liga-se à superfície dos mastócitos e basófilos circulantes. Após uma nova exposição ao antígeno (proteínas Hev b) ocorre a formação de pontes cruzadas entre os anticorpos fixados na membrana (IgE) levando à degranulação de mastócitos e basófilos sensibilizados.

Mediadores pré-formados, tais como histamina, proteases como a triptase são liberados e se associam aos sintetizados em resposta à reação imunológica, tais como os metabólitos do ácido araquidônico (prostaglandinas e leucotrienos) e levam a uma reação que pode variar de uma urticária local ao choque anafilático. A reação do tipo I levando a vasodilatação, broncoespasmo severo, aumento da permeabilidade vascular com formação de edema e colapso cardiovascular pode ser desencadeada por inúmeros agentes usados em anestesia e pode confundir o diagnóstico de alergia ao látex.

GRUPOS DE RISCO

Os grupos de risco são constituídos por pessoas freqüentemente expostas a borracha (látex): pacientes, profissionais da área da saúde ou não. O denominador comum é a exposição continuada ao látex. Dentre os pacientes estão os portadores de espinha bífida que são submetidos a múltiplas cirurgias e freqüentes cateterizações vesicais, muito embora a patologia em si seja um fator de risco para sensibilização(11). O Hev b 1 é o principal alérgeno para crianças com espinha bífida(12).

É importante destacar que algumas frutas, tais como banana, abacate, morangos, algumas frutas cítricas, pêssegos, goiabas, kiwi, melancia e manga possuem proteínas que podem provocar uma reação cruzada com as do látex. Os sinais de reações alérgicas a estas frutas incluem: prurido, aperto na garganta, desconforto respiratório e urticárias. Outros alimentos que também apresentam reação cruzada com o látex incluem castanhas, batatas e tomates. Os pacientes alérgicos às frutas apresentam um risco de 11% de reação ao látex e pacientes alérgicos ao látex têm um risco de 35% de apresentar reação às frutas(13).

Muito embora, como bem diga Batti(14) – “não tenhamos no Brasil uma epidemia de alergia ocupacional ao látex”, e não se tenha, também, números que nos dêem uma dimensão do problema, nem por isso há que se pensar que o mesmo não existe. As luvas com pó fazem parte do dia-a-dia dos centros cirúrgicos, as rotuladas de baixa proteína que possuem menor conteúdo alergênico não são muito conhecidas, os materiais e equipamentos isentos de látex são difíceis de achar, os rótulos são inadequados para esclarecimento da presença ou ausência do látex(13). A alergia ao látex é um desafio nos dias atuais e nesse contexto parece importante ter-se sempre em mente nas avaliações anestésicas a possibilidade de sua ocorrência. O diagnóstico se baseia na história clínica, no exame físico, na presença de fatores de risco e na realização de testes cutâneos para detectar a presença de sensibilização. No decorrer da anestesia há que se observar sinais e sintomas sugestivos da ativação de mastócitos e da liberação de mediadores químicos e considerar sempre a possibilidade de anafilaxia desencadeada pelo látex.

REFERÊNCIAS

1. Nutter AF. Contact urticaria to rubber. Br J Dermatol. 1979;191:597-598.
2. Yunginger JW, Jones RT, Fransway AF et al. Extractable latex allergens and proteins in disposable medical gloves and others rubber products. J Allergy Clin Immunolol. 1994;93:836-42.
3. Zucker-Pinchoff B, Stadtmauer GJ. Latex allergy. M Sinai J Med. 2002;69:88-95.
4. Kelly KJ, Walsh-Kelly CM. Latex allergy: a patient and health care system emergency. Ann Emerg Med. 1998;32:723-729.
5. Murat I. Anaphylactic reactions during paediatric anaesthesia; results of the survey of the French Society of Pediatric Anaesthetists (ADARPEF) 1991 – 1992. Paed Anaesth. 1993;3:339-343.
6. Vervloet D, Magnan A, Birnbaun J, PRADAL M. Allergic emergencies seen in surgical suites. Clin Rev Allergy Immunol. 1999;17:459-67.
7. Laxenaire MC, Mertes PM, Benabes B et al. Anaphylaxis during anesthesia: results of a two-year survey in France. Br J Anaesth. 2001;87:549-58.
8. Vallier P, Balland S, Hart R et al. Identification of profiling as an IgE-binding component in latex from Hevea brasiliensis: clinical implications. Clin Exp Allergy. 1995;25:232-9.
9. Czuppon AB, Chen Z, Rennert S et al. The rubber elongation factor of rubber tree (Hevea brasiliensis) is the major allergen in latex. J Allergy Clin Immunol. 1993;92:690-7.
10. Eckout GV, Ayad S. Anaphylaxis due airborne exposure to latex in a primigravida. Anesthesiology. 2001;95:1034-1035.
11. Hochleitner BW, Menardi G, Haussler B et al. Spina bifida as an independent risk factor for sensitization to latex. J Urol. 2001; 166:2370-3.
12. Nieto A, Mazon A, Pamies R et al. Efficacy of látex avoidance for primary prevention of látex sensitization in children with Spina bifida. J Pediatr. 2002;140:370-2.
13. Sicherer SH. Clinical implications of cross-reactive food allergens. J Allergy Clin Immunol. 2001;108:881-90.
14. Bez Batti MACS. Alergia ao látex. Rev Bras Anestesiol. 2003;53(5):555-560.