Diagnóstico e Propensão
ao Estresse aos Trabalhadores da Saúde
Enfa. Erika Boller
Enfermeira, Mestre em Assistência de Enfermagem pela UFSC.
Gerente de Enfermagem no Hospital da Cidade de Passo Fundo - RS.
INTRODUÇÃO
Conforme é possível perceber, os trabalhadores da saúde tendem a acumular sofrimentos, cansaços, ansiedades durante a jornada de trabalho, muitas vezes não identificando a causa, ou mesmo não sabendo como ultrapassar estes momentos, sem que se instalem seqüelas biopsicossociais, que diminuem sua qualidade de vida no trabalho, além de perda da auto-estima, pelo desempenho progressivamente menos eficiente, com risco de perdas permanentes em qualquer das dimensões que compõem a totalidade de sua vida.
OBJETIVO
Identificar sinais e sintomas que caracterizem estresse aos trabalhadores da saúde.
METODOLOGIA
Identificar e promover a reflexão acerca do cotidiano de trabalho, socialização, bem como despertar a conscientização para propiciar saúde, bem-estar e maior qualidade de vida.
RESULTADOS
Segundo Masci,(1) as pessoas mais propensas a sofrer estresse possuem algumas características em comum, quais sejam:
- não conseguem relaxar;
- querem ser bem-sucedidas o tempo todo;
- não são flexíveis em seu ponto de vista;
- querem sempre preservar sua imagem pessoal;
- dão demasiada importância a um único aspecto da vida;
- necessitam sempre de estímulos externos para sentir-se bem;
- não se sentem à vontade com as pessoas que as rodeiam;
- possuem objetivos de vida incertos e mal definidos;
- possuem desejo permanente de ser outra coisa ou outro alguém;
- levam-se muito a sério.
Segundo Mendes,(2) a sobrecarga ou estimulação excessiva é um estado no qual as exigências que nos cercam excedem nossa capacidade de responder. Os quatro fatores principais que contribuem para a demanda excessiva são:
- urgência de tempo;
- responsabilidade excessiva;
- falta de apoio; e
- nossas próprias expectativas e daqueles que nos cercam.
Um dos mais poderosos fatores estressantes é a perda de controle real ou imaginária. Três categorias de pessoas são particularmente propensas ao estresse devido à falta de controle, ou seja:
- aqueles que exercem profissões com baixos níveis de comando ou tomadas de decisões, levando ao tédio e desamparo;
- aqueles que têm altas responsabilidades, porém baixos níveis de comando, especialmente no ambiente de trabalho;
- aqueles indivíduos que têm forte responsabilidade de controlar a si mesmos e seu ambiente.
Por outro lado, segundo Mendes,(3) “várias são as situações presentes no ambiente de trabalho consideradas ‘estressoras’, em que existe a tendência de se correlacionar níveis altos de pressão arterial e/ou doenças cardiovasculares em geral”. Entre elas, destacam-se:
a) carga de trabalho;
b) insatisfação, alienação, monotonia e frustração com o trabalho;
c) conflitos interpessoais, falta de influência e competição no trabalho;
d) oportunidade de promoção;
e) grau de responsabilidade no emprego;
f) horário de trabalho irregular;
g) trabalho em turnos;
h) trabalho noturno, etc.
Os níveis pressóricos elevam-se em trabalhadores que excedem a 48 horas de trabalho por semana, comparados com trabalhadores com jornada inferior a este limite. As diferenças estão associadas a fatores ocupacionais, ligados à organização do trabalho, ao ritmo e duração do trabalho e ao estresse inerente a algumas ocupações.(3)
Considerando o grau de complexidade das relações sociais e das pessoas com seu meio ambiente, há diferentes possibilidades para o desenvolvimento do estresse, especialmente durante a jornada de trabalho, combinando fatores objetivos e subjetivos.
Segundo Vieira,(4) “os fatores ou agentes estressantes são de 3 (três) categorias, ou seja:
1ª) fatores do contexto;
2ª) fatores ou agentes do ambiente de trabalho; e
3ª) fatores de vulnerabilidade”.
Poderá haver interação destas três categorias de fatores, embora se encontre pessoa mais ou menos propensa, dependendo da sua estrutura psíquica individual.
Destacam-se, entre os fatores de contexto ou do ambiente extraprofissional: remuneração inadequada, propaganda enganosa, políticas governamentais não compromissadas com as necessidades reais, mercado de trabalho restrito, previdência social mal planejada, administração por políticos corruptos, legislação salarial instável e ambígua, hospitais e serviços de saúde sucateados, desajustamento familiar, e outros.
Podemos citar, como fatores ou agentes do ambiente de trabalho estressantes: chefia insegura ou incapaz, autoridade mal delegada, bloqueio de carreira, conflitos entre colegas de trabalho, organização deficiente do ambiente de trabalho, protecionismo, salário inadequado para satisfazer a ambição individual, relacionamento humano deficiente, falta de motivação, desconhecimento das responsabilidades, órgãos públicos administrados por políticos indicados por apadrinhamento, impunidade administrativa dos dirigentes de órgãos públicos quanto a gastos desnecessários, ambientes de trabalho sem as mínimas condições de higiene, entre outros.
Com relação à vulnerabilidade, podemos relacionar as pessoas que necessitam ingerir drogas com freqüência, no seu dia-a-dia, para sua auto-suficiência na solução de problemas laborais, indivíduos de nível intelectual acima da média, portadores de traços neuróticos (inseguros, distônicos, com entusiasmo excessivo e tensos), em sua personalidade, tais como:
- impetuosidade verbal;
- movimento constante;
- impaciência;
- fazer ou pensar duas ou mais coisas ao mesmo tempo;
- dominar a conversa;
- sentir-se culpado quando descansa;
- preocupar-se com o ter;
- programar cada vez mais compromissos ao mesmo tempo;
- alta competitividade;
- tiques ou gestos nervosos com muita freqüência;
- medo de diminuir o ímpeto; e
- fixação nos números.
Tais elementos podem ou não estar presentes e produzir mais ou menos estresse, quando as pessoas que possuem estas características estão expostas a ambientes críticos, que exigem atenção constante, decisão precisa e alta competência, como é o caso das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), Centro Cirúrgico e outros.
O indivíduo poderá reagir de maneira inadequada frente às diversas situações e, dependendo da sua estrutura psíquica, pode desenvolver um desgaste anormal no seu organismo, apresentando uma incapacidade crônica de tolerar, superar ou se adaptar às mesmas, tendo reações das mais variadas, desde intranqüilidade até esgotamento mental. Esta reação é denominada como “reação de emergência” (Cannon, apud Vieira).(4) Posteriormente, Hans Selye chamou de estresse ao “conjunto de reações de adaptação de um organismo” ou ainda, de “conjunto de modificações não específicas”.
O organismo humano apresenta reações específicas e não específicas diante de diferentes exigências, tanto internas quanto externas. A este conjunto de modificações não específicas, Selye deu o nome de Síndrome Geral de Adaptação, que consiste de três fases, quais sejam: reação de alarme, fase de resistência e fase de exaustão.(4)
Não é necessário que cada fase se desenvolva até o final para que haja o estresse; porém, nas situações mais graves, atinge a fase de exaustão.
Por outro lado, quando um indivíduo vive constantemente estressado, poderá desenvolver sérias doenças no organismo, conforme as fases de alarme, resistência e exaustão.
A teoria do estresse, inicialmente formulada por Selye, como Síndrome Geral de Adaptação, posteriormente foi desenvolvida por seus seguidores, para propiciar avanços do conhecimento sobre o adoecer humano. O estabelecimento do estresse como objeto de estudo da epidemiologia amplia o alcance da disciplina, no sentido de desvendar os fatores causais que geram adoecimento nas populações, diante da atual realidade da saúde. Segundo Castiel,(5) são cada vez mais prevalentes quadros de morbimortalidade, em cuja patogenia assumem destacado papel os estados relacionados ao estresse, como a imunodepressão, afecções que provocam comprometimentos cárdio e cerebrovasculares, entre outros.
A base da compreensão do estresse está na elaboração desenvolvida inicialmente por Walter Cannon, apud Castiel,(5) o qual explica que há uma relação de proximidade entre a função neurovegetativa simpática e a atividade emocional. Conforme sua teoria de emergência da emoção, o sistema simpático auxilia o organismo a enfrentar as possíveis agressões à sua integridade. Desse modo, ocorrem modificações fisiológicas subjacentes aos estados de medo, fome, dor, raiva - caracterizada pela secreção adrenalínica de emergência. Por outro lado, percebeu-se que essa abordagem tinha limitações, ao se verificar que a indução adrenalínica pode se manifestar como raiva, euforia, medo, ou até não ser acompanhada por nenhuma emoção, em pessoas preparadas para isso.
Após Selye ter constituído o arcabouço da teoria do estresse em sua postulação da Síndrome Geral de Adaptação, seus seguidores ampliaram suas idéias do estresse físico original para o domínio psicológico, ao estudarem os efeitos da expectativa de situações em que haveria exigências de desempenho ou ameaça à integridade física.(5)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se, portanto, que se deve diagnosticar corretamente a existência do estresse. Infelizmente, não é possível fugir das pressões do cotidiano. Porém, conhecendo o estresse e como evitá-lo, pode-se viver com mais qualidade. Deve-se orientar a prevenção com segurança e técnicas adequadas, para que sejam bem-sucedidas na utilização do método em relação a cada indivíduo.
O indivíduo não deve reprimir seus instintos, deve aprender a dizer “não” e a expressar tudo o que o incomoda, ser mais flexível e não se cobrar constantemente. Nem todos dias podemos ser a mãe, o pai, o trabalhador ou o companheiro que gostaríamos, e por mais que essa seja a nossa vontade, não há vergonha nisso.
Deve ser levado em conta que não é possível separar a vida familiar da vida no ambiente de trabalho; a conciliação entre as duas dimensões é fundamental na prevenção e controle das situações de estresse.
REFERÊNCIAS
1. Masci C. Estresse. Disponível em: <<http://www.regra.com.br/cyromasci/ texto04.htm>> Acesso em: 08 out. 2000.
2. Mendes AMFN. As psicossomatizações do envolvimento emocional no trabalho de um grupo de enfermeiras resultantes da má adaptação às reações de estresse. Florianópolis: UFSC, 1999. Dissertação de mestrado em engenharia de produção, Centro tecnológico. Programa de pós-graduação em engenharia de produção e sistemas. Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.
3. Mendes R. Patologia do trabalho. Rio de Janeiro: Ed. Atheneu, 1995.
4. Vieira SI. Medicina básica do trabalho. Curitiba: Ed. Gênesis, 1995.
5. Castiel LD. O buraco e o avestruz: Singularidade do adoecer humano. Campinas - SP: Papiros, 1994.
6. Congresso Brasileiro de Enfermagem, 1994, Porto Alegre. Qualidade de vida no trabalho: a busca de um trabalhador omnilateral. UFSC: Departamento de Enfermagem - Grupo de Práxis, Maria Tereza Leopardi, 1994.
7. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1994.
8. Limongi F, Rodrigues AL. Stress e Trabalho: guia básico com abordagem psicossomática. São Paulo: Atlas, 1996.
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